O Vale do Silício visto por um de seus maiores investidores

Ben Horowitz, um dos maiores investidores mundiais do setor de tecnologia, revela o que acredita ser o essencial para se tornar um empreendedor de sucesso

São Paulo — Se o Vale do Silício tivesse uma calçada da fama, o nome de Ben Horowitz certamente estaria lá. Ao lado de Marc Andreessen, fundador do navegador Netscape, Horowitz está à frente de um dos fundos de investimento mais respeitados do mundo tech.

O An­dreessen Horowitz já colocou dinheiro numa longa lista de ícones digitais: as redes sociais Facebook e Twitter, o site de aluguel de casas e quartos ­Airbnb, o aplicativo de comunicação Skype, o serviço de armazenamento de dados em nuvem Box, o site de ­notícias e entretenimento BuzzFeed e a fabricante de caixas de som sem fio Jawbone.

Conhecedor como poucos de um dos setores mais inovadores da economia mundial, Horowitz decidiu escrever o livro O Lado Difícil das Situações Difíceis para revelar, sem rodeios, o que ele considera ser crucial para o sucesso de startups.

Na obra, recém-lançada no Brasil, ele fala de sua experiência como investidor e também conta histórias da época em que, como empreendedor, enfrentou o estouro da bolha da internet, no ano 2000.

Para sobreviver à crise, Ho­rowitz teve de vender parte de sua startup de computação em nuvem, mas a história terminou bem: passados sete anos, vendeu o restante da empresa — na verdade, um software de gestão — por 1,6 bilhão de dólares à gigante do setor de tecnologia HP. Horowitz deu a seguinte entrevista a EXAME.

Exame – Qual é o melhor perfil de empreendedor?

Ben Horowitz – Aquele que mais aprende. E os que mais aprendem são os que falham e sobrevivem. As lições mais fortes estão nesse tipo de experiência. Se alguém falha e é obrigado a fechar a empresa, o processo é tão desgastante que deixa uma sensação muito ne­gativa. Quem tem sucesso sem passar por grandes dificuldades acaba es­quecendo o que o levou ao topo, o que é uma temeridade.

Exame – O senhor concorda com quem diz que ainda há muitos jovens que montam uma startup com a ilusão de enriquecer facilmente?

Ben Horowitz – Há muita fantasia. A principal causa disso são histórias de empreendedores jovens, como Mark Zuckerberg, da rede social Facebook, e Evan Spiegel, do aplicativo de comunicação Snapchat. Jovens que fizeram grandes fortunas. O curioso é que pouco se fala dos muitos outros empreendedores que falharam e fecharam.

E, mesmo quando as pessoas prestam atenção nos casos de sucesso, pouco olham para os períodos de grandes dificuldades pelos quais essas empresas, hoje de sucesso, passaram. Mas conheço pessoalmente a maioria desses jovens bem-sucedidos e sei que quase todos eles tiveram momentos de muita tensão. Em algum momento, sentiram que estavam perto de perder tudo.

Exame – Por que mesmo os empreendedores de sucesso resistem em falar de seus erros?

Ben Horowitz – No mundo dos negócios, é sempre difícil encontrar honestidade. Contar a verdade exige muita disciplina. Por quê? Porque os outros gostam mais de você se ouvirem o que estão esperando, mesmo que não seja a verdade. Ter passado por esse processo na fase em que fui empreendedor me permite ser mais honesto com quem hoje está à frente de startups.

Acredito que essa postura me ajuda a convencê-los a também contar a verdade. É assim que posso tentar ajudá-los da melhor forma possível. Sabendo o que realmente se passa nas empresas, consigo pensar em soluções eficazes. Mas, no geral, os empreendedores têm medo.

Exame – Do que eles têm medo?

Ben Horowitz – De expor seus temores e fragilidades. Eles não querem ser criticados ou decepcionar. Na época em que estava montando minha empresa, se tivesse contado tudo, os fundos de investimento que aplicavam nela teriam usado isso para reduzir o valor de minhas ações.

Se o presidente de uma empresa comete um erro — e todos cometem —, ele é visto como incompetente. Quando se está numa posição de liderança, todo mundo espera que você tenha as respostas certas em todos os momentos. Mas ninguém obviamente as tem. Sinceramente, acho muito ­melhor a maneira como trabalho hoje. É bem mais produtiva.

Exame – Foi por isso que o senhor resolveu escrever um livro sobre as dificuldades das empresas novatas, em vez das conquistas?

Ben Horowitz – A maioria dos livros de negócios que lia quando era empreendedor não tinha nenhuma utilidade. Só dava conselhos completamente óbvios, como: “Contrate sempre as melhores pessoas”. Nunca havia nada sobre os períodos em que as empresas encontram dificuldades — e todas passam por períodos complicados.

Esses livros raramente respondem a perguntas que realmente importam. O que um empreendedor deve fazer quando chega a um ponto em que não consegue mais atrair bons funcionários? Minha intenção é mostrar o que fiz quando a situação saiu de controle. Sem dizer obviedades como se elas fossem evitar que algo dê errado.

Exame – Quais são as principais dificuldades enfrentadas pelas startups do Vale do Silício hoje?

Ben Horowitz – Há muita concorrência em todas as categorias de produtos e serviços. Existem diversas startups que têm a mesma ideia e fazem a mesma coisa. Muitas vezes, competem até sobrar uma só.

Do ponto de vista dos investidores, uma dificuldade atualmente é lidar com muitos empreendedores jovens com pouca ou nenhuma experiência profissional. A chave para ser um bom administrador é saber como trabalhar para um investidor. É preciso entender como as pessoas interpretam as suas decisões.

Exame – O senhor é contra empreendedores que não têm experiência?

Ben Horowitz – Não. É bom que o empreendedorismo esteja aberto para pessoas jovens. Elas trazem ideias novas e têm menos certezas sobre como o mundo funciona. Mas o lado negativo é que os jovens, muitas vezes, pensam de forma mais superficial e egocêntrica.

Pode parecer que as startups tocadas por gente muito jovem tenham um ambiente mais divertido. Mas essa inexperiência pode causar problemas fatais em períodos de dificuldades.

Exame – É melhor ser um empreendedor ou um investidor?

Ben Horowitz – Há muito menos pressão no trabalho de investidor. Trabalho duro e tento ajudar as startups nas quais investimos da melhor forma possível, mas, no fim das contas, o sucesso da empresa depende do fundador e das pessoas que trabalham lá.

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