Qual é o futuro da China?

No período em que a China batia todos os recordes de crescimento, seus líderes eram considerados infalíveis. Agora não mais

São Paulo — O milagre econômico chinês das últimas três décadas e meia solidificou a imagem de competência da equipe econômica do país. Durante esse período, a China vivenciou repressões políticas cruéis, principalmente quando o Exército abriu fogo contra manifestantes em 1989, e episódios de nacionalismo raivoso, especialmente envolvendo o Japão.

Na área econômica, porém, o governo chinês só recebeu elogios por seu pragmatismo ao introduzir reformas de mercado e encontrar novas formas de crescimento mesmo quando os obstáculos políticos e econômicos pareciam intransponíveis. É essa credibilidade que agora está em dúvida — uma das razões pelas quais os mercados de ações e de energia entraram em polvorosa em todo o mundo em janeiro.

Em meados de janeiro, o governo chinês anunciou que o crescimento do PIB em 2015 foi de 6,9%, o pior resultado desde 1990 e mais um dado considerado preocupante por parte dos economistas. A China vive hoje uma saída de capitais como há muito não se via. Entre meados de 2014 e o final de 2015, 1 trilhão de dólares saíram do país, de acordo com estimativas da agência de risco Fitch.

Uma parte desse dinheiro é de gente amedrontada pela ampla campanha anticorrupção do governo. A saída de divisas também é reflexo da decisão das empresas locais com dívidas em dólares de pagar o que devem para diminuir a exposição à moeda americana, que tende a se valorizar.

Desde que o governo anunciou que iria permitir a depreciação do iuane, em agosto do ano passado, as reservas cambiais caíram 9%, cerca de 320 bilhões de dólares — quase o total das reservas brasileiras. A China ainda tem o equivalente a 3,3 trilhões de dólares em moeda forte, mas com 320 bilhões aqui, 320 bilhões ali, logo estaremos falando de dinheiro de verdade.

Na melhor das hipóteses, a festejada elite tecnocrática da China perdeu um pouco a mão. Na pior, os líderes chineses parecem estar em pânico porque veem a economia desacelerando e temem não ter mais as ferramentas necessárias para conter uma queda mais acentuada.

“A economia chinesa vem trilhando o caminho da estagnação há algum tempo”, diz o economista De­reck Scissors, especialista em China do American Enterprise Institute, um centro de estudos de Washington. “Se novas reformas de mercado não forem adotadas, o crescimento será interrompido no final desta década.” A crise de confiança não chegou sem aviso.

O ex-primeiro-ministro Wen Jiabao foi o primeiro a advertir, em 2007, que a economia estava “desequilibrada, descoordenada e, em última análise, instável”.

De lá para cá, líderes chineses têm falado abertamente sobre a necessidade de uma ampla transição econômica do modelo que sempre enfatizou a indústria pesada e o investimento do setor público para outro, tendo como base uma economia de consumo privado e de serviços. Em qualquer país essa transição seria difícil. No caso da China, há obstáculos que tornam essa missão ainda mais complicada.

O maior problema é o elevado endividamento. Em 2007, a dívida equivalia a cerca de 160% do PIB. De acordo com o último dado disponível, o percentual está em torno de 240%, um dos níveis mais altos entre as grandes economias. Parte desse salto é resultado do grande pacote de estímulos que o governo criou depois da crise financeira de 2008.

Tomar emprestado tanto dinheiro para evitar uma recessão expôs o excesso de capacidade da economia. Cada iuane aplicado em novos projetos tem um impacto econômico cada vez menor. As consequências incluem rotas de trens pouco usadas, estradas vazias e aeroportos com poucos aviões.

Em um grande número de cidades chinesas, blocos de apartamentos novos permanecem vazios. O mesmo se aplica a fábricas. Em 2003, a própria agência de planejamento do governo identificou excesso de capacidade em três setores da indústria. Mais recentemente, esse número havia subido para 19. Uma vez que a realidade tornou-se mais óbvia, o investimento caiu.

O consumo chinês de eletricidade cresceu, mas apenas 0,5% no ano passado, o pior resultado desde 1998. O transporte ferroviário de carga — que é dominado pelo fornecimento de carvão para usinas de energia — tem diminuí­do significativamente. Ao mesmo tempo, o preço de imóveis novos cai e o número de novas construções diminui.

Estatísticas oficiais do nordeste do país, região dominada pela indústria pesada, também mostram uma economia em declínio. “Na nossa visão, a China está em meio a uma bolha tripla: de crédito, de investimento e imobiliária”, disse recentemente Andrew Garth­waite, analista do banco de investimento suíço Credit Suisse. 

A resposta de Pequim a esses problemas tem sido dizer que vai adotar reformas econômicas que deverão acelerar a transição de um modelo, controlado pelo Estado, para outro que estimule a iniciativa privada. Mas, à medida que o tempo passa, crescem as dúvidas sobre a capacidade do governo de colocar tudo o que fala em prática.

Os comunistas bem que gostariam que o mercado de ações exercesse um papel maior na economia, a fim de reduzir sua dependência de créditos bancários. Mas as repetidas quedas no preço das ações não têm estimulado o aumento dos investimentos. Em janeiro, a bolsa de Xangai voltou a espalhar o pânico entre os investidores.

Nos primeiros 22 dias do mês, o índice das principais ações negociadas caiu quase 18%, uma reprise piorada do que aconteceu em agosto do ano passado, quando os investidores chineses respiraram em suspense enquanto o valor dos papéis derretia. Os últimos acontecimentos levaram a uma ampla reavaliação sobre o presidente Xi Jinping.

Depois de chegar ao poder no final de 2012, Xi ganhou fama de enérgico ao estabelecer um domínio rígido sobre a burocracia, maior do que seu predecessor, Hu Jintao. A maciça campanha anticorrupção que lançou foi em parte um recado a figuras poderosas do partido para não ficar em seu caminho.

Outra característica de sua gestão tem sido a marginalização imposta a algumas lideranças essenciais para tocar a agenda de reformas econômicas. Muitas dessas reformas são parte de projetos complexos e sensíveis, como a liberalização da taxa de juro ou a criação de imposto sobre a propriedade em cidades, que necessitam de acompanhamento por parte de altos líderes.

No entanto, a pessoa mais adequada para a tarefa, Li Keqiang, primeiro-ministro cuja função em tese inclui a gestão diária da economia, tem sido totalmente ofuscada pelo presidente. É Xi quem preside os dois órgãos consultivos dedicados a reformas econômicas e assuntos financeiros e econômicos.

São constantes os rumores em Pequim de que Li será afastado em 2017, bem antes de completar seu mandato de dez anos. 

O comprometimento pessoal do presidente Xi com a reforma econômica também começa a ser questionado. Para alguns analistas, as intervenções hesitantes no mercado de ações e na desvalorização da moeda fazem parte de um padrão mais amplo, segundo o qual reformas de mercado são rejeitadas ao primeiro sinal de resistência política.

“As reformas de mercado avançam de forma morosa”, diz Arthur Kroeber, diretor da Gavekal Dragonomics, empresa de pesquisa econômica baseada em Pequim. “A barganha de Xi é ampliar o controle estatal agora, em troca de uma vaga esperança de que ele acabará por ser utilizado para fins benéficos.”

Velho antes de ficar rico

Uma das decisões mais marcantes de Xi até agora aconteceu no final do ano passado. Num comunicado frio e curto, o governo anulou a regra que desde 1979 forçava as mulheres a ter apenas um filho, um dos maiores exemplos de intromissão estatal na vida privada de que se tem notícia em todo o mundo.

É preciso “implementar de forma ampla uma política que permita aos casais terem dois filhos, tomando medidas ativas para atacar o envelhecimento da população”. Os chineses com 65 anos ou mais são hoje 10% da população, percentual que deverá chegar a 20% nos próximos 20 anos.

Com medo dos efeitos econômicos da diminuição da força de trabalho, o governo agiu para tentar reverter a queda da natalidade — algo sobre o qual os demógrafos têm muitas dúvidas, devido ao alto custo de ter dois filhos na China. Ainda que não obtenha os resultados esperados, a decisão deixou clara a crescente preocupação do PC com o perigo da “armadilha da renda média”.

O medo é que o país perca o fôlego, cresça de forma lenta e fique velho antes de se tornar rico. Nesse contexto de pessimismo, no entanto, muitos observadores experientes afirmam que as preocupações com um derretimento econômico chinês são exageradas.

Nicky Lardy, especialista em China do centro de estudos Peterson Institute, em Washington, salienta que o crescimento dos salários é de cerca de 10% ao ano, o que está gerando forte aumento de consumo por parte das famílias chinesas. Uma década atrás, se o setor industrial tivesse reduzido seu ritmo como hoje, a economia teria desabado como se tivesse “caído de um penhasco”.

Consumo e serviços, porém, estão assumindo agora uma parcela importante da economia. “Os críticos ignoram que o modelo de expansão da economia mudou”, diz Lardy. “O setor de serviços já é o motor do crescimento.”

Para Lardy, os sinais de fraqueza vistos recentemente provarão ser apenas distrações passageiras. Por décadas, os otimistas eram a maioria entre os economistas especializados em China. Agora Lardy é quase um solitário.

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