Você pode aumentar sua garra para ascender de duas formas

EXAME publica, com exclusividade, trechos do livro Garra, um dos maiores best-sellers do mercado americano, que será lançado no final de agosto.

São Paulo — O livro fala do poder da garra, o que poderá ajudar você a concretizar seu potencial. Eu o escrevi porque aquilo que realizamos na maratona da vida depende em altíssimo grau de nossa garra — de nossa paixão e de nossa perseverança nas metas de longo prazo. A obsessão pelo talento nos desvia dessa verdade simples. Antes de ir em frente, gostaria de fazer algumas considerações.

A primeira é que você pode aumentar sua garra. Vejo duas formas de fazer isso. Por conta própria, você pode aumentar sua garra ‘de dentro para fora’: pode cultivar seus interesses; pode adquirir o hábito de praticar todos os dias a superação de dificuldades; pode ligar seu trabalho a um objetivo que vá além de si mesmo; e pode aprender a manter a esperança quando tudo parecer perdido.

Você também pode desenvolver sua garra ‘de fora para dentro’. Aumentar sua garra pessoal depende criticamente de outras pessoas — pais, orientadores, professores, chefes, mentores, amigos. Minha segunda reflexão diz respeito à felicidade. O sucesso não é a única questão que lhe interessa. É claro que você também quer ser feliz. E, embora estejam entrelaçados, felicidade e sucesso não são a mesma coisa.

Você pode estar pensando: se eu tiver mais garra e for bem-sucedido, minha felicidade vai despencar? Há alguns anos tentei encontrar uma resposta para essa pergunta entrevistando 2 000 americanos. Concluí que, quanto maior a garra de uma pessoa, mais provável é que ela desfrute de uma vida emocional saudável.

Ao publicar esse resultado, meus alunos e eu concluímos nosso relatório assim: ‘Os cônjuges e os filhos das pessoas com maior grau de garra também são mais felizes? O que dizer de seus colegas de trabalho e seus funcionários?’ É preciso realizar pesquisas adicionais a fim de explorar as possíveis desvantagens da garra. Ainda não tenho respostas para essas perguntas, que considero importantes.

Quando converso com pessoas que têm muita garra e as ouço falar da emoção que sentem por trabalhar com tanto empenho em prol de um objetivo maior do que elas próprias, não sei se a família delas sente o mesmo. Não sei, por exemplo, se todos esses anos dedicados a uma meta de nível superior representam um custo que ainda não medi.

O que acabei fazendo foi perguntar às minhas filhas, Amanda e Lucy, como é a vida ao lado de uma mãe que tem garra. Elas me viram tentar coisas que eu nunca tinha feito antes — como escrever um livro — e me viram chorar em alguns momentos difíceis. Viram o tormento que pode ser resolver, pouco a pouco, os inúmeros probleminhas que não são um bicho de sete cabeças, mas são complicados.

Houve ocasiões em que elas perguntaram durante o jantar: ‘Será que sempre temos de conversar sobre prática disciplinada? Por que é que tudo sempre envolve sua pesquisa?’ Amanda e Lucy gostariam que eu relaxasse um pouco e, por exemplo, conversasse mais sobre a cantora Taylor Swift. No entanto, ficam muito felizes por ter uma mãe que é um modelo de garra.

Na realidade, Amanda e Lucy aspiram à mesma coisa. Tiveram um vislumbre da satisfação que sentimos quando realizamos algo importante — para nós mesmos e para os outros —, e o fazemos bem, apesar das dificuldades. Elas querem que isso se repita. Admitem que a complacência tem seus encantos, mas que nenhum deles compensa a felicidade de quando realizamos todo o nosso potencial.

Há ainda outra pergunta para a qual não achei uma boa resposta em minha pesquisa. Uma pessoa pode ter garra demais? Aristóteles disse que uma dose excessiva (ou insuficiente) de uma coisa boa é ruim. Considerou, por exemplo, que a insuficiência de coragem é covardia, mas que coragem demais é insensatez. Essa questão foi retomada pelos psicólogos Adam Grant e Barry Schwartz.

Segundo eles, há uma função em U invertido que representa os benefícios de qualquer característica; a quantidade ideal fica num ponto entre os extremos. Em relação à garra, até agora não encontrei a espécie de U invertido que Aristóteles previu ou que Grant e Schwartz determinaram para outras características, como a extroversão.

No entanto, reconheço que em qualquer escolha há meios-termos e consigo entender que isso poderia aplicar-se à garra. Não é difícil imaginar situações em que não fazer nada seria a melhor atitude. Qualquer pessoa pode citar ocasiões em que manteve uma ideia, um emprego ou um caso amoroso durante mais tempo do que deveria.

Em minha própria experiência, foi uma boa decisão abandonar o piano quando ficou claro que eu não tinha grande interesse pela música nem muito talento. Desistir de falar francês com fluência também foi uma boa ideia, embora eu realmente gostasse da língua e a aprendesse mais depressa do que tocar piano.

Deixar de dedicar tempo ao piano e ao francês me proporcionou mais horas para atividades que eu julgava mais gratificantes. Ou seja, terminar tudo o que você começa, sem exceção, é uma boa maneira de perder oportunidades de começar coisas diferentes e, talvez, melhores.

Um dos motivos pelos quais não me preocupo muito com a possibilidade de uma epidemia de garra é que essa perspectiva parece bem distante de nossa realidade atual. Quantas vezes você voltou do trabalho para casa e comentou: ‘Puxa vida, o pessoal do escritório anda com garra demais! Eles nunca deixam de lado seus ideais! Trabalham com uma dedicação absurda! Eu gostaria que fossem menos apaixonados pelo que fazem!’

Mais de uma vez já me perguntaram por que eu acho que a garra é a única coisa que importa. Na verdade, eu não penso assim. Posso afirmar, por exemplo, que a garra não é a única virtude que desejo para minhas filhas. Se quero que elas tenham sucesso em tudo o que fizerem? É claro que sim. Mas sucesso e bondade são coisas diferentes, e, se eu fosse obrigada a escolher, daria preferência à bondade.

Como psicóloga, posso afirmar que a garra não é de modo algum o aspecto mais importante do caráter de uma pessoa. Na verdade, em estudos sobre como as pessoas julgam as outras, a moralidade ultrapassa em importância todos os outros aspectos do caráter. Com certeza, todos notamos se um vizinho parece preguiçoso, mas ficamos escandalizados se ele dá mostras de falta de honestidade ou integridade.

Ou seja, a garra não é tudo. Uma pessoa precisa de muitas outras qualidades para se desenvolver. O caráter é plural. Uma boa forma de encarar a garra é pensar em como ela se relaciona com outros elementos do caráter. Ao avaliar o grau de garra juntamente a outras virtudes, encontro três conjuntos confiáveis de características. Posso chamá-los de dimensões intrapessoal, interpessoal e intelectual do caráter.

Poderia chamá-los também de forças da vontade, da alma e da mente. O caráter intrapessoal inclui garra. Esse grupo de virtudes compreende ainda o autocontrole, sobretudo quando se trata de resistir a tentações como passar horas trocando mensagens de texto e jogando videogame. Isso significa que as pessoas com mais garra tendem a ter autocontrole, e vice-versa.

Coletivamente, as virtudes que possibilitam a concretização de metas importantes já foram chamadas também de ‘caráter de desempenho’ ou ‘qualificações de autogestão’. David Brooks, colunista do jornal The New York Times, chama-as de ‘virtudes de currículo’, pois são elas as responsáveis por arranjarmos empregos e nos mantermos ocupados.

O caráter interpessoal inclui gratidão, inteligência social e autocontrole sobre emoções como a raiva. São virtudes que nos ajudam a conviver com outras pessoas e a colaborar com elas. Às vezes, são chamadas de ‘caráter moral’. David Brooks prefere a expressão ‘virtudes do obituário’, porque, no fim das contas, podem ser mais importantes para a maneira como seremos lembrados do que qualquer outra coisa.

Quando dizemos, com admiração, que alguém é uma pessoa ‘de imensa generosidade’, creio que é nesse conjunto de virtudes que estamos pensando. Por fim, o caráter intelectual abrange virtudes como a curiosidade e a alegria de viver, que estimulam um envolvimento ativo e aberto com o mundo das ideias. Meus estudos longitudinais mostram que esses três grupos de virtudes apontam para diferentes resultados.

Para as conquistas na área dos estudos, o grupo que inclui a garra é mais importante. Mas para uma atuação social positiva, que inclui a facilidade para fazer amigos, o caráter interpessoal é o mais importante. E, para uma postura positiva e independente em relação ao saber, a virtude intelectual supera as demais.

No fim das contas, a pluralidade do caráter faz com que nenhuma virtude seja muito mais importante do que as outras. Muitas vezes me perguntam se incentivar a garra não constitui um desserviço às crianças, ao fixar expectativas altas demais. ‘Cuidado, doutora Duckworth, ou muitas crianças vão crescer achando que podem ser um Usain Bolt, um Wolfgang Mozart ou um Albert Einstein.’

Se não podemos ser Einstein, vale a pena estudar física? Se não podemos ser Bolt, para que dar uma corrida de manhã? Considero essas perguntas absurdas. Se minha filha me disser: ‘Mamãe, não vou estudar piano hoje porque eu nunca vou ser Mozart’. Responderei: ‘Você não está estudando piano para ser Mozart’.

Todos nós temos limites, não só em relação a talento mas também no que se refere a oportunidades. Entretanto, com mais frequência do que pensamos, nós mesmos nos impomos essas limitações. Tentamos, fracassamos e concluímos que batemos de cabeça no teto da possibilidade. Ou, talvez, depois de dar apenas alguns passos, mudamos de direção.

Nos dois casos, nunca vamos até onde poderíamos ter chegado. Ter garra é não deixar de pôr um pé diante do outro. Ter garra é buscar uma meta interessante e significativa. Ter garra é dedicar-se, dia e noite, semana após semana, durante anos a fio, a uma atividade desafiadora. Ter garra é cair sete vezes e levantar oito.”

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