Você notou que a poupança está rendendo mais?

Taxa Referencial tem impulsionado o rendimento da poupança, que nos 12 meses encerrados em agosto registrou o seu maior retorno dos últimos sete anos

São Paulo – Ainda que a poupança seja uma forte candidata ao troféu de investimento mais mal falado dos últimos tempos – ao menos entre especialistas -, o rendimento da caderneta nos últimos 12 meses encerrados em agosto é o maior registrado desde 2009. E a razão por trás disso é uma taxinha pouco conhecida e extremamente complexa: a Taxa Referencial (TR).

De acordo com as regras de remuneração da poupança, sempre que a taxa básica de juros (Selic) for menor ou igual a 8,5% ao ano, a poupança rende 70% da variação da taxa Selic durante o período do investimento mais a TR. E sempre que a taxa Selic for superior a 8,5% ao ano, como é o caso agora, a poupança rende 0,5% ao mês (o equivalente a 6,17% ao ano) mais a TR.

De acordo com a definição do Banco Central (BC) a remuneração básica da poupança é definida pela TR, já os 0,5% ao mês ou os 70% da Selic correspondem à remuneração adicional da caderneta.

O cálculo da TR é complexo (veja explicação mais abaixo), mas, resumidamente, a taxa é definida com base nos juros praticadas nos Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) e nos Recibos de Depósitos Bancários (RDBs) prefixados e com prazo de 30 a 35 dias, das 20 maiores instituições financeiras do país (em volume de captação de CDBs e RDBs).

Segundo o Banco Central, de forma geral, as taxas praticadas nesse CDBs e RDBs – que nada mais são do que títulos de dívidas que os bancos usam para captar recursos – tendem a acompanhar a evolução da taxa Selic e, assim, afetam a TR. Portanto, a TR tende a ficar maior quando a taxa Selic se encontra em patamares mais elevados.

É o que temos visto agora. Enquanto em anos anteriores a TR costumava ficar abaixo de 1% ao ano, no acumulado dos últimos 12 meses encerrados em agosto sua variação foi de 1,56% e impulsionou o rendimento da poupança.

É justamente a TR que faz com que o rendimento da poupança não seja sempre igual e que levou o retorno da poupança a ser o maior registrado desde 2009 no acumulado de 12 meses encerrados em agosto. 

Veja na tabela a seguir os rendimentos da poupança de 2009 a 2015, segundo dados da consultoria Economatica.

Ano Rendimento da poupança Taxa Referencial
2009 7,05% 0,72%
2010 6,90% 0,76%
2011 7,50% 1,40%
2012 6,47% 0,28%
2013 6,37% 0,27%
2014 7,16% 0,97%
2015 (acumuilado dos últimos 12 meses) 7,74% 1,56%

Fonte: Economatica

Ainda que, ao olhar a tabela ou checar o saldo da sua conta poupança, você fique animado por perceber que o rendimento da caderneta está maior, a Selic em alta também puxa o rendimento de outros investimentos de renda fixa do mercado, que são mais conservadores. Assim sendo, não há motivos para euforias com a caderneta.

Outro fator que pode decepcionar os investidores que ainda são apegados à poupança é a inflação. Como o aumento generalizado dos preços tem sido maior do que o rendimento da poupança, o investidor que deixa seu dinheiro na caderneta tem perdido poder de compra.

Para dar um exemplo concreto, suponha um investimento de 100 reais. Ao final de um ano, considerada a mais recente rentabilidade da poupança, de 7,74%, o investidor teria 107,74 reais. No entanto, como a inflação (medida pelo IPCA) foi de 9,53% no mesmo período, seria necessário que o saldo final da poupança fosse de 109,53 reais para que o investidor tivesse o mesmo poder de compra que possuía um ano antes, quando iniciou o investimento. 

Em outras palavras, por mais que o investidor tenha 107,74 reais na conta, ao trocar esse dinheiro por produtos, é como se ele tivesse apenas um valor suficiente para comprar o equivalente aos 98,37 reais de um ano atrás (valor que corresponde ao rendimento da caderneta, descontada a inflação), já que os preços subiram e a caderneta não foi capaz de rentabilizar seu dinheiro na mesma proporção.

Para o professor Samy Dana, da Fundação Getúlio Vargas, o investidor deve sempre olhar seus ganhos em termos relativos, sem se ater ao rendimento nominal (bruto). “Para avaliar se o investimento é bom, o investidor deve olhar o seu rendimento contra a inflação, mas também contra o que ele poderia fazer o com o dinheiro. E hoje, o que ele poderia fazer com dinheiro, é basicamente ganhar a variação da Selic.”

Como os rendimentos de diversas aplicações conservadoras do mercado acompanham o comportamento da taxa Selic, que atualmente está nos 14,25% ao ano, por mais que a poupança esteja registrando seu maior rendimento nominal desde 2009, ao observar que outros investimentos estão rendendo algo próximo a 14,25% conclui-se que a caderneta deixa a desejar.

Conclusão semelhante ocorre ao observar dados mais antigos da poupança. Em 2003, por exemplo, a caderneta rendeu 11,21%, puxada por uma TR alta, de 4,69% ao ano. No entanto, seu rendimento real foi de apenas 1,75% e o custo de oportunidade (que seria o “preço” pago por deixar o dinheiro investido em uma aplicação enquanto você poderia ganhar dinheiro com outra) era enorme, já que a Selic chegou a passar dos 26% ao ano. 

Confira na tabela abaixo o rendimento nominal e o rendimento real (retorno descontada a inflação) da poupança e as variações da TR e da inflação (medida pelo IPCA) no período de 2003 a 2015.

Ano TR Poupança IPCA Rendimento real
2003 4,69% 11,21% 9,30% 1,75%
2004 2,00% 8,10% 7,60% 0,46%
2005 3,01% 9,21% 5,69% 3,33%
2006 2,13% 8,40% 3,14% 5,10%
2007 1,46% 7,77% 4,46% 3,17%
2008 1,79% 7,90% 5,91% 1,89%
2009 0,72% 7,05% 4,31% 2,63%
2010 0,76% 6,90% 5,91% 0,94%
2011 1,40% 7,50% 6,50% 0,94%
2012 0,28% 6,47% 5,84% 0,60%
2013 0,27% 6,37% 5,91% 0,43%
2014 0,97% 7,16% 6,41% 0,71%
2015 (acumuilado dos últimos 12 meses) 1,56% 7,74% 9,53% -1,63%

Fonte: Economatica

Apesar de o rendimento nominal da poupança ser o maior dos últimos sete anos (de 2009 a 2015), ao observar o seu rendimento real (descontado o efeito da inflação) fica claro que a caderneta está longe de ser um bom investimento hoje.

Ao olhar os rendimentos históricos, a situação fica ainda pior: seu retorno real é o menor de todo o intervalo de comparação, de 13 anos.

“No fim das contas, a poupança continua sendo uma aplicação muito ruim. Ainda que com a TR seu rendimento nominal seja maior, ela está perdendo ainda mais da inflação agora. E com a alta da Selic, sua distância em relação a outros investimentos, como os CDBs e os títulos públicosque acompanham a Selic ficou maior”, diz Samy Dana.

Veja opções de investimento práticas e de baixo risco para obter um rendimento superior ao da poupança

Cálculo da TR

Para chegar à Taxa Referencial é preciso uma boa dose de matemática. De acordo com o BC, a TR é obtida, basicamente, a partir da Taxa Básica Financeira (TBF), que é calculada pela remuneração mensal média dos CDBs e RDBs com taxas prefixadas e prazos de 30 a 35 dias.

Os CDBs e RDBs usados no cálculo da TBF são aqueles emitidos pelas 20 maiores instituições financeiras do país (segundo o volume de captação de CDBs e RDBs), que incluem bancos múltiplos, comerciais, de investimento e caixas econômicas, desconsiderando-se as duas maiores e menores taxas médias ajustadas diferentes de zero. A TBF corresponde à média ponderada das taxas informadas ao BC pelas instituições dessa amostra. 

Para cada dia do mês, o Banco Central do Brasil calcula a TBF para o período de um mês com início no próprio dia de referência e término no dia correspondente do mês seguinte.

A TBF é usada então no cálculo Taxa Referencial, que também inclui o chamado redutor “R”, obtido por meio de outra fórmula, que utiliza uma tabela de valores de referência que variam de acordo com a taxa Selic.

Detalhes sobre a fórmula de cálculo da TR e do redutor “R” podem ser consultados no site do Banco Central, tanto na Resolução nº 3.446, de 2007, quanto na Circular nº 3.455, de 2009

Veja, no vídeo a seguir, se é possível investir apenas 50 reais por mês:

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