Carro autônomo: o grande teste da Apple?

David Cohen

Não é que tenha sido uma enorme surpresa. O fundador da Tesla, Elon Musk, costumava se referir aos rumores de que a Apple estava investindo na construção de um carro como um “segredo aberto”. Mas na semana passada as dúvidas se dissiparam totalmente, quando a Apple finalmente admitiu – ainda que do seu modo peculiar – que está desenvolvendo um projeto de carro autônomo.

A confirmação veio por uma carta à National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA), a agência do governo americano responsável por assegurar a segurança nas estradas dos Estados Unidos. A agência requereu que todos os envolvidos em sistemas de tráfego fizessem suas observações sobre o sistema que regulará o tráfego no país até no máximo dia 22 de novembro. No último dia do prazo, a Apple mandou sua carta.

Nela, o diretor de integridade de produtos Steve Kenner pede que a NHTSA promova uma “competição justa” entre os produtores de carro tradicionais e os novos ingressantes no mercado. A Apple está “investindo pesadamente no estudo de aprendizado das máquinas e automação, e está entusiasmada com o potencial dos sistemas automáticos em várias áreas, incluindo o transporte”, diz Kenner na carta.

Quando a carta veio a público, um porta-voz da Apple confirmou que o sistema que a empresa está desenvolvendo poderá “ser usado para transformar o futuro do transporte”. É a declaração mais aberta que se podia esperar, em se tratando da Apple e do seu mítico zelo por manter seus projetos secretos.

O que não ficou inteiramente claro é se a empresa pretende construir seus próprios carros ou se vai apenas desenvolver sistemas que poderão ser licenciados por qualquer montadora.

Segundo os analistas que costumam acompanhar toda e qualquer movimentação da Apple, tratava-se do primeiro caso até o segundo trimestre deste ano (fazer seu próprio carro), depois virou o segundo (produzir só o software), mas pode voltar a ser o primeiro após uma avaliação que deverá ocorrer no final do ano que vem.

Apertem os cientistas que o piloto some

A ideia dos carros que prescindem de motorista virou uma espécie de febre, a fronteira que todos parecem querer cruzar.

A Alphabet (holding que engloba o Google) testa desde 2009 a direção autônoma em carros da Toyota. A Delphi, uma fornecedora de tecnologia automobilística, está fazendo experimentos em Audis.

Mas a Toyota e a Audi também têm seus próprios programas. A Toyota diz que vai ter um carro autônomo até 2020. A Audi, que iniciou testes próprios em 2004, conseguiu no ano passado que um A7 esportivo rodasse 900 quilômetros sem piloto, numa estrada em Palo Alto, na Califórnia.

Nenhuma montadora quer ficar para trás. A Mercedes Benz está fazendo testes na Califórnia e na Alemanha. A Nissan, na Califórnia e no Japão. A Bosch está testando BMWs na Califórnia, em Michigan e na Alemanha.

A Tesla, conhecida por seus carros elétricos, já tem o que chama de piloto semi-autônomo, e promete um carro completamente autônomo para daqui a poucos anos. A General Motors criou um carro conceito semi-autônomo que liberou para seus funcionários testarem. A Ford espera ter carros totalmente autônomos daqui a cinco anos.

Empresas alheias ao mundo dos carros também querem entrar na festa. A Intel, fabricante de chips, anunciou no último dia 15 de novembro que vai investir 250 milhões de dólares nos próximos dois anos no desenvolvimento de carros autônomos. Essa verba, embora enorme, não é grande o suficiente para iniciar uma produção consistente de carros – por isso sugere que a Intel vá se concentrar em criar a tecnologia para equipar os carros dos outros.

Até o Uber, uma empresa de serviços, entrou na febre da produção, com planos de ampliar sua frota de motoristas humanos autônomos por motoristas robôs autônomos. Em maio, mostrou seu primeiro carro auto-guiado, um Ford Fusion híbrido (meio elétrico, meio a gasolina).

E a concorrência não para de crescer. No mês passado, a startup NuTonomy assinou um pré-acordo com a cidade de Boston e com o Departamento de Trânsito de Massachusetts para iniciar testes com seus carros automatizados na ruas de algumas áreas da cidade. Em agosto, a companhia começou uma experiência com táxis autônomos em Cingapura.

A Nvidia, empresa de processadores gráficos e chips para automóveis, também já anunciou seus planos para carros autônomos, assim como o gigante de buscas da China, Baidu. A área está fervilhando tanto que o Departamento de Transportes dos Estados Unidos, na gestão Obama, afirmou que gastaria 4 bilhões de dólares nos próximos dez anos em programas para testar (e criar regulamentos para) carros autônomos.

O Titã que encolheu

Não é que a Apple tenha chegado atrasada para a corrida. A empresa já está investindo nisso há mais de dois anos. Os primeiros boatos sobre o “projeto Titan” eram de que a Apple estava trabalhando em um carro elétrico, com alguma capacidade de se locomover sozinho.

Eles começaram quando a companhia montou um laboratório secreto em Sunnyvale, uma cidadezinha a dez minutos da sua sede em Cupertino, na Califórnia. Vizinhos notaram uma procissão de carros caros, como Teslas e Lamborghinis, sendo entregues e desaparecendo atrás de grandes cercas de madeira construídas pela Apple.

O segundo sinal foram as contratações. A Apple começou a roubar funcionários da Tesla – tantos que começaram a circular rumores de que ela fosse comprar a companhia. Além deles, foram contratados vários executivos da indústria automobilística, principalmente da Fiat, da Mercedes e da Ford.

Jornalistas e analistas especializados em Apple diziam que havia mais de mil empregados dedicados ao “projeto Titan”. E que o carro da Apple seria apresentado ao mundo em 2019 ou 2020.

Então, de repente, tudo mudou. Aparentemente, as equipes começaram a brigar entre si, o projeto não avançava como se previa, faltava uma liderança clara. As primeiras demissões começaram em agosto, seguidas por uma segunda onda em setembro.

Mais de 120 engenheiros de software que trabalhavam em procedimentos para testes foram despedidos, além de outras centenas que projetavam coisas como chassis e suspensão. Vários deles foram transferidos para outras áreas, mas muitos dos profissionais trazidos de outras firmas ficaram sem emprego. O time, agora, contaria com cerca de 600 pessoas.

O líder do projeto, Steve Zadesky, deixou a empresa no início deste ano. Foi substituído pelo veterano da Apple Bob Mansfield.

A partir daí, surgiram boatos de que a Apple estaria procurando parceiros. A empresa sondou a BMW, a Daimler e, mais recentemente, a McLaren. Provavelmente, concluiu que a passagem de fabricar computadores e telefones para carros não era tão simples assim.

Em maio, Mansfield teria reunido centenas de empregados ligados ao projeto Titan e anunciado a nova estratégia: a Apple não iria competir diretamente com a Tesla, que já tem diversos carros elétricos no mercado e também trabalha em sistemas de direção autônoma.

Em vez disso, a empresa se concentraria em desenvolver um software, para licenciar a outros fabricantes. Reforçando esses rumores, a Apple contratou Dan Dodge, o fundador e ex-CEO da QNX, a empresa que criou o sistema operacional do BlackBerry.

Alguns fatores que podem ter contribuído para que a Apple desistisse de fabricar um carro são a regulação desse mercado e a cadeia de fornecedores – muito mais variada e difícil de dominar, o que a impediria de repetir sua estratégia de “prendê-los” com compromissos de exclusividade e segredo. Além disso, há muitos concorrentes, com muito dinheiro, investindo em inovação.

Mas isso não quer dizer que a Apple tenha desistido. O desenvolvimento do iPhone também foi uma confusão, com demissões e trocas de comando que, na época, pareciam indicar a desistência de fazer um smartphone.

O foco no software pode ser um bom primeiro passo. Ao criar um sistema de direção autônoma, a companhia poderá optar entre vendê-lo no mercado ou retornar ao projeto de um carro próprio. Essa decisão deverá ser tomada até o final de 2017.

Força para retomar o plano inicial, a Apple tem. Desde o início do Titan, a companhia dobrou seu investimento anual em pesquisa e desenvolvimento, para 10 bilhões de dólares – e essa tendência vem se acelerando. Seu CEO, Tim Cook, justificou: “Os produtos que estão em P&D, há um bom investimento ali para produtos e serviços que não são derivados da nossa linha atual”.

Por via das dúvidas, a empresa já registrou diversos sites relacionados ao temas, como apple.car e apple.auto.

Para a Apple, o investimento em carros faz muito sentido. As vendas do iPhone, que representam mais da metade da receita da companhia, estão estagnadas – embora individualmente ele seja o telefone mais popular, o conjunto de aparelhos que rodam Android representa 88% de todos os telefones vendidos globalmente.

Ninguém vislumbra problemas no curto prazo, mas essa situação impõe a busca de novas fontes de receita. O próprio Steve Jobs afirmou em 2008 ter considerado construir um carro, mas deixou os planos em suspenso para focar no iPhone.

Talvez este venha a ser o grande teste de Cook: conseguir um lançamento de mais impacto do que os do fundador da empresa, que ele substituiu.

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