A decadência e o futuro da Blackberry

Gian Kojikovski, de Waterloo

A quarta-feira, 28 de setembro, foi um dia triste para a indústria canadense. A Blackberry, que durante anos foi o principal símbolo da força tecnológica do país, anunciou que deixaria de produzir smartphones, terceirizando sua marca para manufaturas que ainda tivessem interesse em produzir, principalmente para vender na Ásia, onde ainda tem uma pequena penetração no mercado. Criada em 1984 na pequena cidade de Waterloo, a cerca de 93km de Toronto, pelos estudantes de engenharia Mike Lazaridis e Douglas Fregin, a empresa chegou a ser a maior vendedora de dispositivos móveis do mundo e dominava 55% do mercado de telefones celulares dos Estados Unidos em 2009, mas sofreu com o crescimento do iPhone e dos celulares Android, que ganharam mercado rapidamente e impuseram à companhia uma das quedas mais vertiginosas da indústria.

Por mais de uma década, os celulares feitos pela Blackberry foram vistos como essenciais para a vida de homens de negócios e políticos, inclusive presidentes americanos – Barack Obama era um fã declarado. Se tornaram sinônimo de respeito para altos executivos, assim como um relógio Rolex ou uma caneta Montblanc. Inovadora, ainda na década de 1990 a companhia foi a primeira a colocar em massa no mercado aparelhos que acessavam e-mails e tinham um teclado “qwerty”, como os computadores, o que facilitava a comunicação escrita. Outra novidade foi o sistema de troca de mensagens exclusivo da companhia, o BBM (Blackberry Messenger), que possibilitava troca de mensagens de graça muito antes de aplicativos como WhatsApp chegarem ao mercado, sem a complicação de um SMS e sem necessidade de estar conectado a rede de dados.

Nada disso foi páreo para as gigantes Google e Apple, que decidiram que os celulares teriam que ser mais do que apenas um veículo para ligações, mensagens e e-mails. Em 2010, três anos depois do lançamento do iPhone, pelo menos 30 vezes mais aplicativos estavam disponíveis para o celular da Apple do que para os aparelhos da concorrente canadense. O faturamento da companhia, que foi de 20 bilhões de dólares em 2011, quando atingiu o auge, caiu para 2 bilhões no ano fiscal encerrado em março de 2016. Em encontro com EXAME Hoje em Waterloo um dia após o anúncio, o ex-presidente e ainda maior acionista individual da Blackberry, Mike Lazaridis, evitou comentar a situação da empresa.

O sinal da decadência

Poucos dias depois do comunicado sobre o fim da produção de smartphones, eram poucas as lojas de telefone de Toronto que disponibilizavam em suas vitrines algum dos modelos que a fabricante ainda comercializa. O espaço era reservado para telefones da Samsung, HTC e, principalmente, da Apple. “Ninguém procura nada da Blackberry há um bom tempo. Quando alguém compra, geralmente é uma pessoa mais velha que gosta de digitar no teclado e não se importa com os aplicativos”, disse para a reportagem de EXAME Hoje um atendente de uma loja da Rogers, uma das principais empresas de telecomunicações do Canadá, no principal shopping da cidade.

A baixa procura exemplifica bem a dificuldade que a empresa teve em desenvolver dispositivos com tela sensível ao toque. Com a queda de relevância, entrou em um ciclo vicioso: perdeu mercado e importância, o que fazia com que os principais aplicativos não fossem desenvolvidos para o sistema operacional da companhia. Sem poder ter acesso aos apps, as pessoas não tinham interesse em comprar um Blackberry. Os usuários que insistem na empresa, mas querem usar os aplicativos da moda, como o Snapchat, o Uber e o Instagram têm que fazer acrobacias – que nem sempre são bem-sucedidas – para conseguir.

Se para o consumidor final os celulares Blackberry deixaram de fazer sentido, muitos governos ainda preservaram interesse nos dispositivos por um bom tempo, mesmo após o crescimento das concorrentes. O principal motivo é porque a empresa é reconhecida mundialmente pela segurança que conseguia colocar em torno de seu sistema. As mensagens trocadas pelo BBM eram criptografadas desde muito antes de outros aplicativos de chat existirem e o sistema ainda é apontado como um dos mais seguros do mundo. Esse é o motivo que fazia o serviço de segurança do presidente Obama deixá-lo utilizar apelas um telefone da marca.

Mas isso mudou em 2016. E até o antigo fã fez chacota com a situação da empresa – uma piada que explica bem a situação pela qual a Blackberry vem passando. Durante uma entrevista para um programa de TV americano, Obama contou que sempre foi do tipo de pessoa que adota novas tecnologias rapidamente e foi o primeiro de seus amigos a ter um celular da marca canadense. Com o passar dos anos, todo mundo fez o mesmo e ele continuou usando a Blackberry mesmo depois de assumir a presidência. Com o tempo, todo mundo mudou para celulares com sistema da Google ou da Apple e ele era o único obrigado a continuar a usar aparelhos da marca, mas tinha inveja de ver suas filhas e mulher com outros celulares, melhores.

No começo deste ano, o serviço de segurança disse ”Sr. Presidente, nós finalmente lhe daremos um celular melhor que o Blackberry”. O presidente disse que ficou empolgado e respondeu “Ótimo, até que enfim”. Desde 2012, o governo americano vem trocando seus aparelhos funcionais por iPhones e o próprio governo canadense tomou o mesmo caminho, de maneira mais lenta, a partir de 2013. “Graças a Deus”, disse a EXAME Hoje uma funcionária do governo do Canadá enquanto comentava o fim da produção própria da empresa. “Creio que agora receberemos celulares mais modernos”, se divertiu.

Mas e agora?

Sair do ramo de produção de celulares não quer dizer que a Blackberry vai deixar de existir. Os 4.500 funcionários que ainda estão na companhia, a maioria deles na sede, em Waterloo, devem focar agora no negócio que mais cresce no portfólio, que é justamente a criação de sistemas operacionais seguros, que devem se voltar para o público empresarial e governamental. Esse sempre foi o forte da empresa antes da tentativa de se aventurar na venda de celulares para o público geral.

Recentemente, a Blackberry comprou duas empresas menores que focam na construção de sistemas de emergência para governos e de segurança para dispositivos móveis. A ideia é se tornar uma empresa de nicho, fazendo um movimento parecido com o que a Nintendo também está tentando realizar no ramo dos games. A venda de software próprios, que nunca representou uma fatia significativa do faturamento, tem crescido. Hoje, a venda de hardware representa apenas 36% do faturamento da companhia, contra 70% há três anos. Já a receita dos software cresceu 66% nos últimos 12 meses, em relação aos 12 meses anteriores, e chegou a 566 milhões de dólares

A mudança de rumo não quer dizer que a vida como empresa de software seja mais fácil que nos hardware – ainda mais no mercado mobile e em um nicho tão restrito. A gigante Microsoft, que tentou bastante e nunca conseguiu emplacar bem o Windows Mobile, serve de exemplo. Além da Blackberry, outras empresas que desenvolvem produtos focados para o mesmo público, que precisa de segurança na troca de informações por meio de smartphones, são a própria Microsoft, a SAP, a Citrix e a IBM. A luta pela sobrevivência da Blackberry está só começando e nem o mais otimista dos analistas crê que ela voltará ao auge, quando chegou a valer mais de 80 bilhões de dólares, 20 vezes mais do que hoje, na bolsa americana. Ainda assim, pode usar do saudosismo de executivos para voltar a ser sexy para esse mercado.

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