Matemática não é resumida em regras, diz vencedor de “Nobel”

O carioca, que é considerado um dos melhores matemáticos do mundo, acredita que o Brasil avançou muito no campo da ciência e da tecnologia nos últimos anos

São Paulo – “Um campo de conhecimento humano que data dos primórdios da civilização e que lida muito com a criatividade.” Muitas pessoas relacionariam esta frase com a disciplina de história. No entanto, para Artur Avila, ela tem tudo a ver com a matemática.

“É uma criatividade muito informada que precisa ter uma base de conhecimento”, disse o matemático em entrevista a EXAME.com. “Assim como Picasso tinha que dominar o que já existia para criar coisas novas, os matemáticos precisam entender os problemas para os solucionarem.”

Ganhador da medalha Fields de matemática (apelidada de “Nobel da matemática”), Avila pode ser considerado um prodígio. Com 21 anos, ele já estava terminando seu doutorado em matemática no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro, e se preparava para começar seu pós-doutorado na França.

Agora, com 36 anos, o matemático vive entre Paris e Rio de Janeiro, e trabalha como pesquisador no IMPA e no Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica. Nesta semana, Avila veio a São Paulo para participar do EXAME Fórum de Educação.

Desde 2006 no país, Avila acredita que as áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (CTEM) se desenvolveram muito nos últimos anos. “Nós já temos capacidade de fazer matemática em um nível internacional.”

Segundo ele, a principal diferença entre o Brasil e a Europa é a tradição. “No nosso país, a história deste campo é mais recente. Em Paris, por exemplo, já é uma engrenagem que está rolando há muito mais tempo.”

Apesar de atrasados em relação aos países mais ricos, o matemático afirma que comparado a outros locais em desenvolvimento, o Brasil está mais avançado nos estudos de CTEM. “Nós podemos estar atrás dos países desenvolvidos. Porém, estamos no caminho certo.”

A matemática é chata?

O Brasil é um dos países com mais baixo desempenho dos alunos em matemática. Segundo o principal exame internacional de educação básica, o Pisa, o país teve média de 391 pontos em 2013. Um aumento em comparação à média de 356 pontos em 2003.

No entanto, a melhora no desempenho não foi suficiente para tirar o Brasil das últimas colocações do ranking da Pisa — está em 58º lugar, entre 65 países. Além disso, de acordo com a OECD, organização que elabora o exame, 67% dos alunos brasileiros não possuem o nível mínimo de matemática para competir no mercado de trabalho.

Porém, para Avila, o baixo desempenho dos alunos em matemática não é uma realidade apenas no Brasil, mas também em outros países. Segundo ele, a má fama da disciplina se deve ao modo como ela é ensinada.

“Os professores, geralmente, explicam a matemática de uma maneira enfadonha. Isso faz com que você se sinta um computador e totalmente sem vontade de aprender.”

Além disso, para o matemático, a disciplina ainda é muito discriminada. “Muitos acreditam que a matemática é resumida em regras. Elas existem, mas podem ser mais libertadoras e usadas para resolver problemas e gerar reflexões.”

Exceção dentro do sistema de ensino brasileiro, o matemático agora é um exemplo na área e espera que isso possa ser positivo para o desenvolvimento da ciência e da tecnologia no país.

“Espero que o meu reconhecimento sirva de papel para humanizar a matemática no Brasil e para mostrar que ela é algo vivo e necessário.”

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