HTC One

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Avaliação de Airton Lopes / Há quem diga que a disputa entre iPhone 5 e Galaxy S4 pela coroa de melhor smartphone é bobagem, pois o One deixa ambos para trás. Preferências à parte, o aparelho da HTC é indiscutivelmente o Android com design mais atraente e traz uma configuração exuberante, com tela full HD de 4,7 polegadas e processador de quatro núcleos. À primeira vista, a câmera de 4 MP parece tímida. Porém, em vez de exagerar na resolução, a HTC investiu em recursos para que fotos feitas com pouca luz apresentem menos ruídos que as feitas pelos rivais em 8 MP e 13 MP. Nos testes, as imagens do One em cenas escuras ficaram realmente melhores. Mas, em ambientes bem iluminados, apesar de muito boas, elas registram menos detalhes. A filmagem normal é feita em 1 080p. Baixando a resolução, dá para gravar vídeos com uma taxa de 96 quadros por segundo para obter o efeito de câmera lenta. Como não há previsão de lançamento no Brasil, a compra do One inclui algumas surpresas. Na versão europeia avaliada pelo INFOlab, o 4G não funcionou.

Avaliação de Leonardo Veras / Um smartphone, como todo produto, é o resultado de uma série de comprometimentos. Ao adotar um determinado design ou conjunto de recursos, os fabricantes sempre são forçados a sacrificar algo antes mesmo de sequer considerar o preço final do aparelho. No mercado do Android atual nada representa melhor esse dilema do que a comparação entre o Galaxy S4 e o HTC One. São duas filosofias completamente diferentes: enquanto a Samsung se pergunta “qual é o design que devemos adotar para implementar a maior quantidade possível de recursos?”; a HTC questiona “que recursos são possíveis dentro dos limites de um determinado design?”.

O One é um smartphone construído em uma peça única de alumínio que segue um desenho incomum: observando-o de lado, o telefone começa reto e gradualmente se tona mais alongado e curvado até atingir a base, de modo que ele parece flutuar quando colocado sobre uma mesa. Ao longo de seu perímetro, uma faixa de plástico é flanqueada por duas linhas de metal brilhante e pela moldura preta da tela. As diferentes superfícies e a curvatura da traseira fazem com que a luz seja refletida de maneira desigual, o que gera um efeito de contraste muito atraente. É, também, um arranjo resistente: depois de mais de dois meses de uso normal, apenas o logo da Beats Audio apresenta sinais da ação do tempo. O One é o primeiro Android a rivalizar diretamente com a Nokia e a Apple no campo da construção física.

O alumínio de fato proporciona uma “pegada” sólida ao One, mas ele é grande demais para ser manuseado confortavelmente com apenas uma mão. Comparando, o Galaxy S4 tem dimensões similares às do One apesar de possuir uma tela maior (4,7” contra 5”). A posição da câmera também tem seus problemas: o dedo indicador frequentemente acaba se apoiando bem em cima da lente. Sempre lembre- se de levar um pano de microfibra consigo se você pretende tirar fotos com o One.

É óbvio que a HTC deu muita atenção para a construção física desse telefone. Com efeito, muito do bom é do ruim neste aparelho deriva justamente dessa questão. Os componentes internos são organizados como uma pirâmide invertida, com a bateria instalada logo abaixo da tela, o que explica porque esta não poderia ser removível. Da mesma forma, o projeto denso do telefone, aliado ao corpo de metal, dá outra dimensão aos problemas de geração de calor. O One esquenta muito durante a gravação de vídeos longos, por exemplo.

No entanto, quando me refiro a “design”, refiro-me a um conjunto de aspectos que vão além da aparência do aparelho e determinam o seu propósito. A dedicação da HTC ao design é a realização de uma visão muito clara sobre a função do One, sobre para quê ele serve. Enquanto a Samsung quer criar um smartphone que é “tudo para todos os homens”, a HTC procura alcançar apenas dois objetivos com o One: ele deve ser atraente na sua totalidade e deve servir como uma ferramenta de produção e reprodução de mídia.

Hardware e conexões

Mesmo quando a Samsung e a HTC optam por componentes parecidos, a diferença entre os dois é clara: ambos usam utilizam o Snapdragon 600, mas o clock de CPU do One é ligeiramente menor (1,9 GHz versus 1,7 GHz). Era imprescindível manter a temperatura e o consumo de energia do One sob controle por causa das restrições de design que mencionei acima. Isso se traduz, é claro, em resultados geralmente inferiores nos benchmarks. Ainda assim, devo admitir que depois de mais de um mês utilizando os dois smartphones, minha percepção é que o desempenho prático de ambos é quase idêntico. Embora o Android tenha seus problemas de performance inconsistente, tanto S4 quanto One são muito rápidos.

Creio que a única concessão que a HTC fez no assunto do design foi esculpir lacunas no corpo de alumínio para que este não interferisse com as ondas de rádio. Afinal, um celular tem que servir como celular, por mais bonito que seja. Aparentemente, a solução deu certo. Falta de sinal de GSM e 3G (incluindo HSPA+) nunca foi um problema em todo o período em que estive com o One.
 
Quanto ao 4G, a HTC implementou o LTE Cat 3, com um limite teórico de download de 100 Mbit/s. O modelo que analisamos era o internacional, que opera nas frequências 800, 1800 e 2600. Como as operadoras brasileiras têm trabalhado com os 2600 MHz, não é impossível que o One consiga utilizar o 4G da rede nacional, mas essa situação não é tão simples quanto a de aparelhos homologados. Tive a oportunidade de testar o aparelho com um SIM da Claro e o One não conseguiu se conectar. Mais tarde, fiz o mesmo com o chip de um modem 4G Vivo e obtive sinal. Pretendo continuar realizando testes conforme a rede brasileira se consolida, mas, por enquanto, não é possível recomendar o One para alguém que não pode dispensar o LTE.

O One foi o primeiro celular a adotar o padrão de Wi-Fi 802.11ac, com suporte a duas bandas de operação (2,5 GHz e 5 GHz), latência melhorada e uma série de outros benefícios. No caso do One, o chip pode atingir velocidades de transferência de até 433 Mbit/s, mas apenas nas melhores condições. A desvantagem óbvia é que ele precisa se conectar a um aparelho que também tenha Wi-Fi ac para funcionar. Como o padrão ainda não foi formalmente ratificado pela IEEE, roteadores que o suportam ainda são relativamente raros, especialmente no Brasil.

Por sorte, tínhamos um desses roteadores à mão, mais especificamente, o Belkin AC 1200 DB. Em modo TDP, o iPerf acusou uma velocidade de transferência de pouco mais da metade do limite teórico: 225 Mbit/s. O resultado é excelente, mas, para um smartphone, esse nível de velocidade tem poucas aplicações. Na prática, o maior efeito do Wi-Fi ac é a redução do consumo de bateria: como as transferências são mais rápidas, o chip de Wi-Fi pode passar mais tempo inativo. Como todo bom Android lançado recentemente, esse smartphone suporta Wi-Fi Direct e pode enviar imagens e som para TVs compatíveis com Miracast.

Além das estrelas Wi-Fi ac e LTE, o One apresenta um ótimo elenco de coadjuvantes. Ele possui NFC, Bluetooth 4.0, infravermelho, GPS, GLONASS e a microUSB de sempre. Fiquei impressionado com o NCF, que funciona sem qualquer problema apesar do corpo de metal. O Bluetooth, por sua vez, ganhou um pouco mais de tempero que a média graças ao codec aptX, que transmite áudio em qualidade de CD (16 bits, com amostragem de 44,1 kHz).

A única ausência marcante no campo das conexões é o leitor de cartão SD, o que limita as opções de armazenamento do usuário. Para contrabalancear essa desvantagem a HTC adotou duas estratégias. A primeira é que o One só possui modelos de 32 GB ou 64 GB, o que garante pelo menos 24 GB livres para uso. A segunda é a utilização do USB On-the-Go, que reconhece periféricos como mouse, teclado e pen drives. Além do OtG, a porta microUSB também tem suporta a MHL para transmitir imagens e som por HDMI.

Áudio e Vídeo

A presença do Bluetooth especializado, do Miracast e do MHL já indica a vocação do One como reprodutor de mídia, mas isso é apenas parte da história. Um dos motivos por traz do tamanho exagerado do One era o desejo da HTC de instalar um sistema de áudio estéreo verdadeiro no aparelho.

É difícil descrever a diferença que os dois alto falantes fazem apenas pela posição frontal e por serem estéreo. O som é alto e encorpado, repleto de detalhes. Enquanto a esmagadora maioria dos celulares é inútil como caixa de som, o One é pelo menos audível, algo incrível para um aparelho tão pequeno. Com esse smartphone, é perfeitamente possível dispensar os fones de ouvido para ver um filme, por exemplo.

De qualquer maneira, quem não dispensá-los encontra uma boa alternativa no fone que vem com o aparelho. Apesar de pequeno, ele é capaz de produzir um som de qualidade e seu uso de cabos planos é bem vindo por quem quer que não goste de perder tempo desenrolando fios.

A preocupação com o áudio continua no reino do software com as opções de som da Beats Audio. Não se trata de um aplicativo, e sim de um equalizador automático integrado ao próprio sistema. Curiosamente, ele dispensa a tradição da marca de focar nos graves e prefere normalizar os tons, diminuindo o volume máximo. Não há nenhuma opção de áudio mais complexa, só é possível ligar ou desligar a equalização.

Passando para o vídeo, a HTC focou todas as atenções na tela. Estamos falando de um display LCD de resolução 1080p que não é nada menos que excelente. Como era de se esperar de um IPS, as cores não distorcem nem quando olhamos o telefone dos ângulos mais extremos. O LCD em si segue a matriz de cor RGB normal. Apenas no iPhone 5 encontrei uma tela de smartphone com gama de cor mais ampla e fiel, mas vale mencionar que o One tem uma tendência sutil de forçar os azuis.

Quanto à escolha entre LCD e o AMOLED usado no Galaxy S4, creio que essa é uma questão estritamente pessoal. O AMOLED possui uma taxa de contraste evidentemente maior, mas as cores, especialmente no caso do S4, são muito exageradas. Normalmente, eu consideraria a ausência do PenTile uma vantagem por si só do One sobre o S4, mas o fato é que a tecnologia progrediu muito e não há uma diferença de resolução notável entre os dois aparelhos. Enfim, a tela do One é extremamente aguda e agradável. Pela primeira vez, um smartphone não me fez querer ligar um Kindle toda vez que muito texto aparecia na tela.

Reproduzindo vídeo, a GPU Adreno 320 consegue renderizar sem atrasos todos os formatos convencionais. Como sempre, no caso do H.264 com perfil de cor Hi10P, a decodificação deve ser feita por software para evitar perdas de qualidade. Ainda assim, a CPU rápida garante que a perda de frames não seja tão intensa.

Em resumo, o One reúne todos os recursos necessários para a melhor experiência de vídeo possível em um smartphone nos dias de hoje: com áudio de qualidade, um dos mais avançados processadores mobile de vídeo do mercado e uma tela impressionante.

Câmera

O que nos leva ao outro lado da moeda: produção de mídia. A HTC apostou pesado na câmera do One, mas não da maneira convencional, que consiste em aumentar o número de pixels e instalar mais filtros de imagem. Em suma, a HTC propõe que a principal característica de uma câmera de celular não é resolução, mas a versatilidade. Dentro dessa visão, a câmera do One foi projetada desde o início para se adequar a condições de luz desfavorável.

Foto por: INFO

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A diferença mais óbvia entre a câmera do One e a dos smartphones convencionais é a resolução de 4 MP. O marketing da HTC justifica esse número pequeno com o termo “ultrapixel”, mas na realidade não há nada de diferente na estrutura em si dos receptores de luz. A verdadeira vantagem dessa câmera é que ela utiliza um sensor de 1/3”, o mesmo tamanho utilizado nos módulos de 13 MP da Sony e da Samsung.

Vou citar um pouco do contexto por trás dessa decisão da HTC. Sensores de 1/3” são utilizados no mundo mobile desde a época em que câmeras de 5 MP eram as mais comuns (embora a maioria dos fabricantes se contentasse um CMOS ainda menor na época). Portanto, conforme a resolução aumentou de 5 MP para 8 MP e, mais tarde, para 13 MP, os pixels diminuíram de 1.75 microns (1*10^-6 metro) para 1.4 microns e, finalmente, para 1.1 microns. Na prática, pixels menores tem o potencial de exibir mais detalhes, mas eles também são acompanhados de uma série de desvantagens.

Pixels menores são menos sensíveis à luz e tendem a gerar fotos com mais ruído em ambientes escuros. Eles também exigem um sistema óptico muito mais apurado porque quanto menor o pixel, menor a tolerância de difração do círculo de Airy. Em outras palavras, as vantagens de um sensor de alta densidade de pixels são negadas quando as condições de luz não são perfeitas.

Com o One, a HTC tomou o caminho inverso do resto da indústria. O módulo de câmera tem pixels de 2 microns, quase o dobro do encontrado no Galaxy S4 ou no Xperia ZQ. Consequentemente, ele é muito mais resistente ao ruído que aparece quando a sensibilidade do sensor é aumentada.

Ainda no assunto do sensor em si, a HTC adotou uma organização curiosa. Em vez de adotar o formato 4:3, como é o caso da esmagadora maioria dos sensores (tanto de smartphones quando de câmeras), a HTC optou pelo 16:9. Isso permite que a tela mostre o enquadramento real do sensor sem cortes ou barras pretas. Ou seja, o sensor foi preparado desde o início para funcionar com a tela do aparelho. Há a opção de tirar fotos em 4:3 ou 1:1, mas a resolução é reduzida.

Mas 4 MP é o suficiente? Em um mundo no qual a alta resolução padrão dos monitores de computador é de 1080 por 1920 pixels (ou seja, cerca de 2 MP), 4 MP é mais que o suficiente. É verdade que telas de resolução mais alta estão lentamente se tornando mais comuns, mas a mudança de paradigma ainda vai demorar. Quando toda casa possuir uma TV 4k (cerca de 8 MP), a câmera do One será obsoleta.

Mas a estratégia da HTC para lidar com cenas escuras não acaba na resolução do sensor. Da mesma forma que o Lumia 920, o One possui estabilização de imagem óptica. Além do efeito óbvio de tornar a gravação de vídeos mais fluida, a estabilização permite que a câmera assuma tempos de exposição mais longos, diminuindo a necessidade de aumentar o ISO e, portanto, evitando ainda mais a manifestação de ruído nas imagens. Outra vantagem é que o One pode utilizar tempos de exposição curtos para congelar objetos que se movem rapidamente.

Foto por: INFO

Mais um ponto que aproxima o One do Lumia 920 é a lente rápida de abertura f2.0. Uma lente de abertura maior permite que mais luz atinja o sensor em um dado instante. Se mais luz passa pelo sistema óptico de uma só vez, o sensor atinge o nível de luz necessário para produzir a exposição em menos tempo. Em outras palavras, a velocidade do obturador pode ser maior ou o ISO pode ser menor sem afetar a imagem final.

Refletindo essa capacidade do sensor, o aplicativo de câmera permite ao usuário definir o ISO máximo entre 100 e 2000, enquanto a maioria dos aparelho para no ISO 800.

Um reflexo não tão óbvio dessa vantagem pode ser percebido nas escolhas de software da Nokia e da HTC. Em cenas escuras, o Lumia 920 é obrigado a adotar tempos de exposição longos, especialmente 1/3 segundo. O One, por sua vez, limita o tempo de exposição a um máximo de 1/7 segundo no modo normal e 1/3 segundo no modo noturno. Em outras palavras, quando a cena é escura, o One favorece a velocidade do obturador (para congelar o movimento) e aumenta o ISO. Quando a cena é clara e parada, contudo, notei que o One opta por ISOs baixos e tempos de exposição um pouco mais longos que outros aparelhos.

Esses recursos já tornam a câmera do One extraordinária, mas há ainda mais para ser dito. O processador de sinal de imagem do aparelho, combinado com o Snapdragon 600, é capaz de alguns truques antes reservados apenas para câmeras dedicadas. Além da gravação de vídeo em 1080p a 30 FPS, ele também é capaz de capturar filmes em 720p a 60 FPS, o que é essencial para cenas movimentadas. Abaixando a resolução para 768 x 432, ele atinge 96FPS, o que cria um efeito de câmera lenta. Por fim, o vídeo em 1080p também pode ser gravado em modo HDR (mas apenas a 28 FPS), que melhora a qualidade de imagem em cenas de muito contraste.

Além da velocidade flexível, a HTC optou por uma codificação de vídeo com bitrate mais elevado que o normal (20 mbps). Por um lado, essa escolha melhora a qualidade das imagens. Por outro, contudo, ela também aumenta o tamanho dos vídeos em um aparelho que não tem slot de cartão SD. Claro, a imagem é apenas metade de um vídeo. Para o áudio, a HTC reservou dois microfones, um dos quais é responsável pelo cancelamento de ruído em vídeos e ligações.

Há várias novidades na parte do software. O One possui 8 modos de cena tradicionais, que incluem Macro, HDR, Panorama e modo noturno. O grau de controle sobre a exposição é razoável (cor e saturação, por exemplo, são ajustáveis). Curiosamente, embora exista uma aba dedicada ao ISO, o usuário não pode controlar seu valor diretamente. Modificar o ISO altera apenas o limite de sensibilidade que a câmera pode usar (i. e. selecionar o ISO 800 é o mesmo que dizer “você pode variar entre 100 e 800”). Também existem 16 filtros de imagem com alguns efeitos interessantes. A maior parte destes pode ter sua intensidade controlada pelo usuário.

O grande destaque nesse ponto é um modo de foto e vídeo que a HTC chama de Zoe (uma referência aos zootropos, uma das formas primitivas de animação). Essencialmente, o modo Zoe grava um clipe de 3 segundos de vídeo em Full HD ao mesmo tempo em que captura 20 fotos de 4 MP. Essas imagens não são comprimidas em um gif ou zip, são JPEGs e MP4s normais que simplesmente recebem outro esquema de nomenclatura para não serem misturados com as fotos comuns. A parte interessante é que a galeria do telefone agrupa automaticamente essas imagens em um vídeo de 30 segundos com alguns efeitos dramáticos, como zoom e flash. A qualidade das imagens cai um pouco nesse modo.

Mas, afinal, a câmera é boa? Sim, ela é excelente para o que se propõe. A intensidade de ruído é de fato muito menor do que a que aparece na concorrência, mesmo quando comparamos o One com o Lumia 920. As cores tendem a ser mais naturais também, embora o modo Macro às vezes force um pouco os tons vermelhos. Como era de se esperar, o nível de detalhe é o aspecto que mais decepciona.

Analisando as imagens em tamanho real, é fácil notar que o One se perde em enquadramentos com texturas complexas. Essa perda de detalhe é especialmente perceptível do segundo plano em diante: o efeito de profundidade de campo rasa não produz um desfoque muito agradável. Outro problema é a gama dinâmica: a câmera tende a superexpor as partes mais claras da imagem.

Quando as condições de luz são ideais, câmeras de maior resolução exibirão maior detalhe, mas essas condições são raras na vida real. Esta é uma câmera ideal para ser usada em restaurantes, escritórios e ambientes internos em geral, assim como em dias nublados. É claro que ela não dá tanta liberdade de corte quando uma câmera de 13 MP, mas creio que esse fato é irrelevante. Na prática, ninguém tira uma foto pensando em utilizar apenas uma de suas partes mais tarde. O fotógrafo simplesmente recompõe a imagem de tal forma que uma câmera de 4MP exiba a mesma cena que uma câmera de qualquer outra resolução.

Sistema

O One roda uma versão desatualizada do Jelly Bean (4.1.2) sob a customização Sense 5.0. O Android não poderia estar mais diferente. A HTC adotou uma estética similar à do Windows Phone, com designs chapados, cores absolutas, tipografia mais ousada e iconografia simples.

Parece que a linguagem visual ainda está em desenvolvimento porque alguns ícones ainda utilizam muitos detalhes, especialmente no menu de configurações. Ainda assim, o aspecto geral é muito atraente e combina bem com o design físico do aparelho. O Sense utiliza a fonte Roboto Condensed ao longo de todo o sistema, uma bela escolha.

Foto por: INFO

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A própria interface apresenta mudanças significantes. Existe, por exemplo, um gesto de três dedos que serve de atalho para mandar todo o tipo de mídia para um reprodutor externo. Arrastar três dedos sobre um filme, por exemplo, faz com que o telefone o envie para uma TV com Miracast.

Uma diferença irritante para qualquer usuário veterano de Android é a falta de um botão físico de Opções. O One só possui um botão Home e um Voltar. O botão de Opções só aparece via software como uma barra preta de aspecto desagradável na parte inferior da tela.

Por outro lado, o gerenciador de aplicativos é mais prático que o comum. Em vez de mostrar uma fila de thumbnails com os programas abertos, o Sense 5.0 exibe uma grade 3×3 na qual todos os aplicativos ativos aparecem simultaneamente. O teclado também é interessante por utilizar um método de entrada similar ao do Swype e por dar sugestões de palavra em até duas línguas simultâneas.

O restante das mudanças é basicamente cosmética. No menu de aplicativos, por exemplo, a navegação passa a ser vertical, ao contrário da orientação horizontal da área de trabalho.

A HTC também incluiu um leitor de RSS chamado Blink Feed que, dependendo das configurações escolhidas, exibe notícias, eventos do calendário, mensagens de redes sociais e até mesmo a programação de um canal de TV. No papel a ideia até parece boa e o aplicativo é bonito como o Flipboard. Na prática, contudo ele não é muito útil. A seleção de fontes de RSS é muito limitada: apenas 19 veículos internacionais. A apresentação também é confusa demais porque informações tão díspares quanto lembretes e notícias são apresentadas na mesma interface.

Foto por: INFO

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O aspecto mais frustrante da Sense 5.0 é a falta de customização. A princípio, o usuário pode apenas selecionar um papel de parede que vale para a área de trabalho e para a tela de bloqueio. Quanto ao que é exibido na tela de bloqueio, pode-se escolher entre informações básicas, reprodutor de música e galeria. Também é possível criar pastas na área de trabalho e no menu de aplicativos, mas as opções não vão muito além disso.

O usuário pode alterar a barra de atalhos persistente, mas apenas a partir do menu de aplicativos, o que é um pouco contra intuitivo. Também é impossível se livrar do Blink Feed ou de qualquer aplicativo da HTC. Não há como mudar as fontes e os títulos dos aplicativos. Enfim, o Sense tem o mesmo teor fechado de algo criado pela Apple.

Claro, sempre existem alternativas. Em um nível superficial, o usuário pode facilmente instalar um launcher diferente, como o Nova, para acessar funções básicas de customização. Como One é Android antes de ser Sense, sempre existe a possibilidade de usar uma ROM customizada. Desde Maio já existe uma versão do CyanogenMod para o One.

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Ainda assim, devo dizer que não é o suficiente. Instalar uma ROM customizada está além das habilidades da maioria dos usuários de smartphone. O launcher, por sua vez, não muda todos os aspectos da interface, que acaba ficando com uma aparência fragmentada. O Sense deveria conferir essas liberdades básicas por padrão. Mas, como mencionado no começo da resenha, a HTC tem opiniões muito fortes a respeito de como deve ser a experiência de uso do One. De fato, o sistema é bonito, mas poderia ser mais aberto.

Há ainda uma questão séria para quem pretende rodar uma ROM customizada: a câmera. Como mencionado na seção anterior, a câmera do One depende de um sensor muito particular que certamente não poderia exibir todo seu potencial em um sistema mais próximo do Android puro (exceto no caso do One Google Play Edition). Além disso, o aplicativo de câmera em si é muito bom e seria uma pena perde-lo.

O fato de que o Android está desatualizado também não ajuda. Contudo, não considero essa uma questão muito problemática. Vários dos recursos introduzidos pelo Jelly Bean 4.2 já estão presentes no 4.1 do One, como o teclado com entrada por gestos e o suporte a Miracast.

Uma questão que pode dificultar a vida de alguns usuários é que o sistema não suporta o Português como linguagem geral. Não por acaso, boa parte dos aplicativos da HTC é inútil no Brasil. O serviço de vídeo HTC Watch, por exemplo, sequer abre. Já o aplicativo de controle remoto TV perde parte dos seus recursos porque só trabalha com a programação de canais estrangeiros.

Por outro lado, alguns aplicativos nativos têm funções interessantes. O navegador, por exemplo, não é de todo mal, especialmente porque ainda suporta Flash. A galeria de imagens, como outros elementos do sistema, é integrada a serviços de armazenamento online como Picasa e Dropbox, além de exibir fotos publicadas pelos contatos do usuário nas redes sociais.

Bateria

Uma pergunta inescapável para qualquer smartphone, por melhor que este possa ser, é quanto dura a bateria. Como sempre, essa é uma questão complexa que pode ser abordada por vários ângulos.

Em nosso teste padrão de ligação, o One não se saiu muito bem para os padrões atuais. Sua bateria de 2300 mAh suportou 15 horas e 26 minutos de chamada. Outros aparelhos avançados, como o S4 passam das 20 horas nas mesmas condições.

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Ainda assim, não acho que a bateria seja algo que impeça o uso do One. Em reprodução contínua de vídeo, ele durou 6 horas e 48 minutos. Em uso moderado, com Wi-Fi e 3G sempre ativos, acesso frequente ao GPS e ao navegador, o One suportou 16 horas e 7 minutos. Em uso leve, com Wi-Fi e 3G sempre ativos e acesso intermitente à internet, ele passa de um dia e meio.

Conclusão

Se nosso tema, como sempre, é determinar qual é a melhor escolha para o consumidor brasileiro, temo que essa questão já havia sido respondida antes que eu escrevesse o título desta resenha. Por não ser vendido no Brasil, o One é mais caro que um Galaxy S4 e a HTC não oferece nenhum tipo de suporte. Como mencionado acima, ele simplesmente não foi preparado para nosso mercado.

Isoladas as questões econômicas, o assunto muda de figura. Talvez a abordagem relativamente mais aberta da Samsung seja, em última análise, mais coerente com os fundamentos do Android. Afinal, a beleza do sistema do Google sempre esteve no fato que ele é aquilo que você faz dele, para bem ou para mal.

Apesar desses argumentos, é inegável que a HTC criou um produto incontornável que certamente influenciará o futuro dos smartphones. Já é possível discernir um pouco de sua linguagem estética no novo aparelho da Motorola.

A extensão desta resenha deve servir como o melhor testemunho que posso produzir a respeito da qualidade do HTC One. Este é um aparelho admirável, moldado com engenhosidade a partir de ideias grandiosas. A insistência em limitar o Android para criar uma interface consistente ao longo de todo o sistema, a coragem de ir contra as pressões de marketing ao projetar a câmera, tudo nesse smartphone indica um tremendo esforço por parte do time de engenharia e de design. Felizmente, o One parece não ser o “canto do cisne” da HTC. Mas, mesmo esse fosse o caso, é difícil imaginar um desfecho mais eloquente.

Atualização

Desde do dia 6 de Julho, a HTC tem gradualmente liberado a atualização do One para o Android 4.2.2. Ontem à noite (16/07/2013) o modelo testado pelo INFOlab finalmente recebeu a nova versão. Além de incluir ajustes de estabilidade e performance, o update resolve alguns problemas mencionados em meu texto original. 

Na nova versão, a barra de atalhos pode ser alterada a partir da área de trabalho e pode conter pastas com mais de um aplicativo. A tela de bloqueio também ganhou a habilidade de exibir widgets. Por fim, a função do botão de opções foi alocada ao botão Home: basta pressiona-lo por alguns instantes para ativa-la (o Google Now pode ser acessado com um gesto de deslize sobre o mesmo botão Home). 

A HTC também incluiu recursos típicos do Jelly Bean 4.2 comum, como o screensaver Daydream, que aparece quando o telefone está carregando, e a possibilidade de interagir com aplicativos no menu de notificações (vale mencionar que esse recursos já existia em menor grau na versão anterior). 

De qualquer maneira, o cerne de minhas críticas persiste. Agora o One tem um menu de configuração rápida ao lado do menu de notificações, mas o usuário não pode escolher que opções aparecem nele. A seleção de widgets para a tela de bloqueio também é extremamente limitada: no caso do modelo testado, de 56 aplicativos instalados, apenas 5 podem ser exibidos. Em suma, a HTC mantém uma abordagem relativamente fechada para a interface do Android. 

Ficha técnica

Conexão 4G (LTE)
SO Android 4.2.2
Processador Snapdragon 600 Krait 1,7 GHz quad core
Armazenamento 32 GB
Tela 4,7”
Câmera 4 MP (1.080p) e 2,1 MP
Peso 145 g
Duração de bateria 15h26min

Avaliação técnica

Prós Design impecável; configuração poderosa; tela de alta qualidade; câmera versatil; som estéreo
Contras 4G não funciona no Brasil; não tem slot de cartão SD; não tem botão físico de opções;
Conclusão O HTC One é definitivamente um dos melhores Androids do mercado, mas sofre por não ter sido preparado para o mercado brasileiro.
Configuração 9,1
Usabilidade 8,7
Diversão 9,7
Bateria 7,8
Design 9,0
Média 8.9
Preço R$ 2.599

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