Na internet, a verdade não importa mais

Farhad Manjoo

© 2016 New York Times News Service

Agora que as eleições nos Estados Unidos acabaram, poderemos limpar as pilhas de mentiras, farsas e outras porcarias que foram usadas livremente nesta eleição pesada e indiferente aos fatos?

Muita coisa ainda permanece obscura, porque a internet está distorcendo nossa compreensão coletiva da verdade. As pesquisas mostram que muitos de nós nos entocamos em nossas próprias câmaras de eco de informação. Em uma pesquisa recente do Centro de Pesquisa Pew, 81 por cento dos que responderam disseram que as pessoas tendenciosas não apenas diferiam sobre políticas, mas também sobre “fatos básicos”.

Por anos, tecnólogos e outros utópicos argumentaram que as notícias on-line seriam um benefício para a democracia. Mas esse não tem sido o caso.

Mais de uma década atrás, como um jovem repórter cobrindo a intersecção da tecnologia com a política, percebi o oposto. A internet estava cheia de pessoas que acreditavam em coisas como o governo americano ter cometido os atentados de 11 de setembro e tendenciosos que juravam, contra todas as evidências, que George W. Bush havia roubado a eleição de 2004 de John Kerry, ou que Barack Obama era um muçulmano nascido no exterior. (Ele nasceu no Havaí e é cristão praticante.)

Claro, há tempos os Estados Unidos têm fascinação por teorias da conspiração. Mas as farsas on-line e as teorias marginais pareceram mais virulentas do que suas predecessoras pré-internet. Também são mais numerosas e mais persistentes. Durante a campanha presidencial de Obama em 2008, cada tentativa de desacreditar o rumor de que ele não havia nascido nos EUA parecia aumentar sua prevalência on-line.

Em um livro de 2008, argumentei que a internet iria inaugurar a era do “pós-fato”. Oito anos depois, na agonia de uma eleição que apresenta um candidato que já liderou a campanha mentirosa sobre o nascimento de Obama, há mais motivos para se desesperar sobre a verdade na era on-line.

Por quê? Porque se você estudar as dinâmicas de como a informação se move na internet hoje, praticamente tudo conspira contra a verdade.

Você Não é Racional

A raiz do problema com as notícias on-line é algo que inicialmente parecia ótimo: temos muito mais fontes de informações de onde escolher.

Nos últimos 20 anos, a internet superou o jornal da manhã e o noticiário noturno com um amontoado de fontes de informação, de revistas on-line bem fundamentadas a checadores de fatos atrás de escândalos de corrupção a três caras do seu clube de campo cujo grupo no Facebook afirma ter provas de que Hillary Clinton e Donald Trump são, na verdade, a mesma pessoa.

Uma variedade mais ampla de fontes de notícias deveria ser o baluarte de uma era racional – “o mercado de ideias” como dizem os incentivadores dessa noção.

Mas não é assim que tudo isso funciona. Psicólogos e outros cientistas sociais repetidamente mostraram que quando são confrontadas com várias opções de informação, as pessoas raramente agem como autômatos racionais com mentalidade cívica. Ao invés disso, somos perturbados por preconceitos e predisposições, e normalmente fazemos o que parece mais fácil – desfilamos informações que confirmam nossas ideias e evitamos o que não funciona.

A Prova não Tem Poder

A tecnologia digital nos abençoou com maneiras melhores de capturar e disseminar notícias. Existem câmeras e gravadores em todos os lugares e, assim que algo acontece, você pode encontrar provas primárias do evento on-line.

Seria lógico pensar que maior documentação primária levaria a um acordo cultural mais firme sobre a “verdade”. No entanto, tem acontecido o oposto.

Pesquisadores mostram que duas pessoas com pontos de vista diferentes podem olhar para a mesma imagem, vídeo ou documento e acabar com ideias incrivelmente diferentes sobre o que eles mostram.

Essa dinâmica ocorreu repetidamente este ano. Algumas pessoas olham para as revelações do WikiLeaks sobre a campanha de Hillary Clinton e veem uma prova concreta, enquanto outras dizem que não é nada e que, além disso, os dados foram manipulados, roubados ou tirados do contexto. Pesquisas mostram que as pessoas que gostam de Trump viram a fita do Access Hollywood onde ele casualmente disse que a referência a apalpar mulheres era apenas “conversa de vestiário”; aqueles que não gostam dele consideraram a questão como a pior coisa do mundo.

Mentiras como Instituição

Uma das aparentes vantagens das notícias on-line é a persistente verificação dos fatos. Agora quando alguém diz algo falso, os jornalistas podem mostrar que estão mentindo. E se os sites de checagem de fatos fizerem bem seu trabalho, provavelmente aparecerão em pesquisas na internet e redes sociais, fornecendo uma referência pronta para as pessoas que querem corrigir os registros.

Mas isso não tem acontecido. Hoje, dezenas de meios de comunicação de notícias checam rotineiramente os fatos dos candidatos e muito mais on-line, mas o esforço tem se provado muito ineficaz contra a maré de farsas.

Isso acontece porque as mentiras também se tornaram institucionalizadas. Existem hoje sites inteiros cuja única missão é publicar notícias ultrajantes ou completamente falsas (assim como as notícias reais, as falsas se tornaram um negócio). Páginas tendenciosas no Facebook entraram em ação; uma recente análise das principais páginas políticas do Facebook feita pelo BuzzFeed mostrou que 38 por cento das informações que os sites de direita publicaram e 20 por cento das dos sites de esquerda eram falsas ou enganosas.

“Enquanto as fraudes antes eram compartilhadas por seu tio-avô que não entendia a internet, a desinformação que circula agora está sendo reforçada pelas campanhas políticas, por candidatos ou por grupos amorfos de tweeters trabalhando em torno das campanhas”, explica Caitlin Dewey, repórter do Washington Post que escreveu uma coluna chamada “What Was Fake on the Internet This Week” (O que era falso na internet esta semana).

A coluna de Caitlin começou em 2014, mas no final do ano passado ela decidiu pendurar seu chapéu de checadora de fatos porque tinha dúvidas de que estava convencendo alguém.

“Em muitos aspectos, desmascarar só reforçava o sentimento de alienação ou de indignação que as pessoas sentiam sobre o tópico e, em última análise, você faz mais mal do que bem”, afirma.

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