Nico Rosberg: condenado a ser vice?

Com seu estilo low-profile, Nico Rosberg luta contra o ex-amigo Lewis Hamilton para se consagrar campeão da F1 como o pai Keke

O auditório de um luxuoso hotel em área nobre de São Paulo nem estava em sua lotação máxima quando um jovem estreante da F1 entrou na sala de conferência. Nas cadeiras da plateia, uma folha de papel com o logotipo da Williams trazia informações sobre o personagem que seria entrevistado pela primeira vez no Brasil, às vésperas do GP de Interlagos, como piloto da maior categoria do mundo.

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O texto continha as informações de praxe: nome, idade, altura, peso… Um detalhe chamava a atenção no breve perfil, que começava assim: “Nico Rosberg teve uma infância normal em Mônaco (…)”. Como assim, “infância normal em Mônaco”? Podia ser até um lapso da redatora da equipe, mas o fato é que, para o filho de Keke Rosberg, campeão mundial de F1 de 1982, a vida nas ruas do principado (que, para milhões de pessoas, representam um sonho distante) é o cenário equivalente ao campinho de futebol da praça na frente da sua casa – o lugar “comum” de suas memórias de infância…

Isso foi em 2006. Cortamos para 2015: novamente, a cena se desenrola sob o olhar atento dos jornalistas, mas desta vez do mundo inteiro. Lewis Hamilton vence o GP dos Estados Unidos de F1 e se consagra como tricampeão mundial, superando justamente seu companheiro de equipe, Nico. O duelo intenso entre os dois deu o tom da temporada e apenas o alemão poderia fazer frente ao inglês, já que a Mercedes tinha o melhor carro do ano.

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Antes da cerimônia de pódio, Hamilton pega o boné de segundo lugar e joga para Nico. Que, por sua vez, irritado com a provocação, atira de volta com violência em direção ao rosto do companheiro de equipe.

Talvez dois episódios não sejam bastantes para definir a personalidade do piloto que pretende quebrar o estigma de “jovem bem-nascido” criado em Mônaco para conseguir seu lugar no Olimpo dos campeões da F1. Um lugar onde, por sinal, seu pai tem uma cadeira cativa, e onde apenas uma dupla de pai e filho já conseguiu ingressar (os ingleses Graham e Damon Hill).

O caso dos Rosberg tem, no entanto, uma particularidade. O filho não corre com a bandeira da Finlândia como o pai, mas pela da Alemanha, de sua mãe e de sua cidade natal, Wiesbaden.

É justamente pelo time germânico da Mercedes que Nico se credenciou como um dos principais nomes da atual F1 – embora muito menos badalado que o trio Fernando Alonso, Sebastian Vettel e, claro, Lewis Hamilton. Desde 2014, quando a Mercedes iniciou sua hegemonia na categoria na entrada da nova fase dos motores turbo e híbridos, Nico está no topo da lista de candidatos à vitória.

Mas ele precisa derrotar justamente seu companheiro de equipe, Hamilton, que em números já se equivale aos maiores do esporte. Como a Mercedes não faz jogo de equipe e deixa seus pilotos brigarem abertamente pela vitória, às vezes a rivalidade é digna de comparação com a época áurea da McLaren em que Ayrton Senna e Alain Prost venciam e se detestavam.

Aposentadoria do Schumacher

Talvez o status atual de estrela da Mercedes tenha sido garantido ainda nos primórdios da nova fase da equipe, em 2010, após a compra da estrutura da campeã Brawn GP. Na época, Nico era um jovem alemão promissor e tinha como companheiro de equipe o maior recordista da F1, seu compatriota Michael Schumacher.

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Foi justamente nesses três anos como colegas de equipe que Nico criou seu cartão de visitas: foi ele quem liderou o time com os melhores resultados no período, conquistando três pódios contra nenhum de Schumacher. Além disso, Nico obteve, em 2012, a primeira vitória dessa nova fase da Mercedes. Isso deve ter ajudado Schumacher a optar pela aposentadoria definitiva (ele chegou a parar em 2006, mas voltou três temporadas depois).

Era justamente esse alemão que “aposentou Schumacher” que todos imaginavam como virtual campeão de 2016 no início da temporada, quando emplacou quatro vitórias seguidas (se juntarmos as três do fim do Mundial de 2015, são sete vitórias consecutivas no total). No auge dessa onda vitoriosa, na véspera do GP da Espanha, a VIP perguntou a Nico em que a vida dele mudava com a sequência arrasadora.

“Nada, nenhuma diferença. Estive lutando pelo campeonato nos últimos dois anos, então é a mesma coisa agora. Minha luta é com o Lewis e contra todas as outras equipes. Além disso, já liderei o campeonato em 2014, então não é algo diferente em minha vida”, respondeu, com o já tradicional tom neutro que adota tanto para perguntas delicadas como para as mais simples.

Mas era, sim, diferente. E foi justamente no palco da entrevista, em Barcelona, que a guinada começou. Naquela prova, um acidente entre ele e Hamilton, logo na primeira volta, causou mais uma crise na Mercedes. Coincidência ou não, Hamilton saiu mais forte, como em todos os incidentes anteriores entre eles. Foi assim em 2014, quando Nico liderava o Mundial e o inglês virou a mesa após um acidente entre os dois em Spa-Francorchamps. E Hamilton acabou campeão.

Amizade destruída

Depois da batida em Barcelona, ficou nítido o fim da amizade com Hamilton. A Mercedes convocou às pressas uma coletiva de imprensa logo após a corrida com os dois pilotos falando sobre o acidente – mas separadamente. Nenhum culpou o outro, tampouco alguém assumiu a culpa. Na Áustria, outro acidente, desta vez com Nico levando a culpa, após jogar o carro para cima do inglês e sofrer uma punição.

“Não vamos mudar nossa filosofia, vamos dar chances para os dois serem campeões”, responde o chefe de equipe, Toto Wolf, a cada incidente.

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O irônico é que eles foram melhores amigos por anos. É clássico o vídeo de Hamilton cumprimentando Nico pelo primeiro pódio na F1, em 2008. Sabe aquele abraço de felicidade pelo seu brother? Na época, era genuíno.

Quando os dois dividiam a mesma equipe de kart, o clima era de paz, como lembra o piloto brasileiro Tuka Rocha, que competiu com eles no Mundial de Kart em 2000. “Os dois tinham uma superestrutura numa equipe com suporte da McLaren. Eles se davam muito bem e já dava para ver que iriam chegar na F1”, diz Tuka.

Sergio Jimenez, hoje na Stock Car, também estava nesse grid e competiu no Europeu de Kart daquele ano com Nico e Hamilton. Ele conta: “Lewis tem mais velocidade pura, mas Nico conhece melhor a equipe e extrai mais detalhes com análise de telemetria. Sempre correram de igual para igual”.

De fato, no caminho até a F1, os dois tiveram trajetórias parecidas, tanto que Nico se tornou o primeiro campeão da GP2 (divisão de acesso da F1) em 2005, título que ficaria com Hamilton no ano seguinte.

Mas, em termos de personalidade, eles não poderiam ser mais opostos. Nico é o que se pode chamar de cidadão do mundo: além da vida de viajante de um piloto de F1, é poliglota: fala seis línguas e ainda entende bem o português, como já chegou a alertar, meio de brincadeira, um de seus assessores.

Em seu Instagram, nada de fotos com milhares de celebridades por dia, mulheres de biquíni em iates etc. Nico é mais low-profile, com um lado família que expõe fotos da mulher com quem vive há 11 anos, Vivian Sibold, e dos carrões que acelera. Fã de carros antigos e de futebol (é torcedor do Bayern de Munique), Nico está distante do estilo popstar de Hamilton.

Lealdade

Fora das pistas, o alemão é descrito como alguém ético e leal. Chamou a atenção uma das respostas que Nico deu a este repórter na véspera da decisão da F1, em 2014, em Abu Dhabi (em que a vitória valeria o dobro de pontos pela primeira vez na história). Ele se declarou contra a regra, mesmo sendo o principal beneficiado. Afinal, estava atrás na tabela e a vitória com peso dobrado poderia lhe dar o título.

“Eu acho artificial e não gosto disso, mas o que importa é ver se os fãs gostam e se vamos manter isso ou não”, respondeu Nico a VIP.

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De fato, os fãs não gostaram, a regra caiu – e Hamilton foi campeão. Aquela era a primeira disputa direta dos dois. Agora, na terceira queda de braço, Nico sabe que, aos 31 anos, tem que aproveitar sua chance agora. Enquanto pilotos como Sebastian Vettel, Lewis Hamilton e Fernando Alonso já se consagraram bem mais jovens (os dois primeiros com 23 anos, o espanhol com 24), ele não consegue deslanchar para dar esse último passo. Como consolo, já renovou com a Mercedes até o fim da temporada de 2018. Sendo ou não campeão agora.

Seria a fama de “Mister Nice Guy” o problema? Outros tantos pilotos sentiram isso na pele – e não estamos falando de quem sofreu como segundo piloto (como Rubens Barrichello com Schumacher ou Felipe Massa com Alonso), mas, sim, de quem supostamente teve chances iguais e acabou ficando na sombra do adversário, como Mark Webber na Red Bull e David Coulthard na McLaren.

O estilo low-profile não ajuda Nico a ganhar torcida. Na Alemanha, mesmo quando está na frente, não é o mais popular – embora o mais querido Vettel ainda não chegue perto da popularidade do mitológico Schumacher. No paddock da F1, o comentário é que o cidadão alemão médio não se identifica com Nico. É, fala sério, uma infância dita normal em Mônaco talvez possa trazer problemas futuros…

Isso não é necessariamente um defeito. Até entre seus colegas Rosbergdestoa, sobretudo no nível intelectual. O alemão teve, inclusive, que declinar um convite para se formar em engenharia aeronáutica no Colégio Imperial de Londres por conta de suas atividades como piloto. Ainda assim, sempre foi o menino prodígio. Nos testes de aptidão da equipe Williams, aplicados aos jovens pilotos, alcançou a maior pontuação da história, por isso mereceu ter a primeira experiência num carro de F1 com apenas 17 anos.

O estilo “caxias” ajuda Nico a usar a telemetria do carro ou uma estratégia diferente para vencer Hamilton. “No GP de Baku, o exemplo foi claro: os dois Mercedes tiveram problema. O Hamilton ficou reclamando no rádio, enquanto o Nico soube consertar o problema e vencer a prova”, explica o piloto paulista Sérgio Jimenez.

Em meio a tantas comparações de Hamilton com Ayrton Senna, talvez o segredo para Nico seja aliar qualidades dos rivais do brasileiro: o lado “professor” de Prost e a habilidade de Piquet em atrair os membros da equipe para seu lado. Por sete corridas seguidas, Nico fez isso. Agora, precisa repetir a tática na reta final do Mundial para finalmente ser campeão. Façanha que, até agora, ninguém que teve uma “infância normal em Mônaco” conseguiu.

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