Pais que fazem exercício têm filhos mais magros, diz estudo

Resultados indicam que a prole de pais e de mães submetidos a treinamento engorda menos que a de pais e mães sedentários

A prática de atividade física regular pelas mães antes e durante a gestação e pelos pais no período da cópula pode tornar os filhos menos propensos a desenvolver obesidade na vida adulta.

A conclusão é de um estudo feito com camundongos na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), sob a coordenação do professor Ronaldo de Carvalho Araújo e com apoio da FAPESP.

Resultados preliminares foram apresentados no dia 10 de setembro, durante a 30ª Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE), realizada na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

“Os resultados indicam que a prole de pais e de mães submetidos ao treinamento engorda menos que a de pais e mães sedentários quando alimentada com dieta hiperlipídica. Parece haver uma conjunção de fatores que faz com que a ingestão alimentar seja menor e o gasto calórico, maior”, contou Araújo em entrevista à Agência FAPESP.

O trabalho foi feito durante o doutorado dos alunos Frederick Wasinski e Rogério de Oliveira Batista. Também contou com a participação da estudante de mestrado Aline Midori Arakaki.

Em um primeiro experimento, foi avaliado apenas o impacto da prática de atividade física materna nos descendentes.

Durante quatro semanas, as fêmeas de camundongo foram habituadas a nadar durante uma hora por dia, cinco dias por semanas, com uma carga equivalente a 3% do peso corporal presa à cauda.

Após esse período, as fêmeas foram colocadas para cruzar e o treinamento foi mantido com a mesma intensidade durante a gravidez.

“Adotamos esse protocolo porque estudos anteriores já haviam mostrado que ele é eficiente para melhorar o funcionamento do sistema cardiovascular de camundongos”, contou Araújo.

No final da gestação, os cientistas observaram que as fêmeas treinadas apresentavam peso corporal semelhante ao das integrantes do grupo controle, que permaneceram sedentárias durante toda a gravidez.

No entanto, o porcentual de gordura observado nas mães atletas foi aproximadamente 20% menor. O número de filhotes nos dois grupos foi equivalente.

Já o peso dos filhotes ao nascer foi em média 7% menor no grupo das mães treinadas, ficando abaixo do valor considerado normal. “É uma diferença bastante significativa, se pensarmos que cada ninhada pode gerar de cinco a dez descendentes”, disse o pesquisador.

Análises feitas com a placenta indicaram que, nas mães treinadas, houve queda na expressão de um gene relacionado com o metabolismo energético, responsável pela produção do hormônio leptina (inibidor do apetite). Também estava menos expresso o gene do fator de crescimento placentário (PIGF, na sigla em inglês), uma proteína importante para a formação de novos vasos sanguíneos.

“Esses dados sugerem que os filhotes das mães que treinaram receberam um aporte de nutrientes menor ao longo da gestação, o que explicaria o baixo peso ao nascer. É possível que parte da energia que deveria estar indo para os bebês tenha sido usada na prática de exercícios, mas ainda estamos fazendo novas análises para termos certeza. Estamos olhando, entre outros fatores, o número e o tamanho dos vasos para avaliar em que medida o exercício físico interferiu na placenta”, disse Araújo.

Ao comparar os níveis de adiponectina e leptina no tecido adiposo das fêmeas, os pesquisadores não viram diferença significativa entre os dois grupos.

As mães treinadas, porém, apresentaram concentrações sanguíneas mais altas de corticosterona, o equivalente ao hormônio cortisol humano, o que sugere que não estavam bem adaptadas ao exercício.

Resistência à obesidade

Na literatura científica, de maneira geral, o baixo peso no nascimento tem sido associado com um maior risco de obesidade, resistência à insulina, diabetes e doenças cardiovasculares na vida adulta.

De acordo uma teoria conhecida como “programação fetal”, quando a mãe passa por privação nutricional durante a gestação, o organismo do feto se adapta a esse ambiente intrauterino adverso.

Ocorre uma reprogramação na expressão dos genes que faz com que o metabolismo do bebê se torne poupador e isso se mantém após o nascimento, podendo contribuir para o ganho de peso caso o padrão de ingestão calórica melhore ao longo da vida.

Há estudos indicando que a administração de corticosterona sintética em animais prenhas pode induzir um efeito semelhante à privação nutricional, ou seja, o estresse durante a gestação poderia fazer com que o filho nasça com baixo peso e, consequentemente, risco aumentado para doenças metabólicas e neurológicas.

Mas os resultados observados nos experimentos feitos na Unifesp foram completamente opostos ao esperado segundo a lógica da programação fetal. Os filhotes nascidos com baixo peso se mostraram mais resistentes à obesidade e mais sensíveis à insulina que aqueles nascidos com peso normal.

Quando as proles dos dois grupos chegaram à idade adulta – ou 3 meses de vida – já estavam com peso e tamanho equivalentes e foram alimentadas com uma dieta hiperlipídica durante 16 semanas.

Após esse período, os filhos de mães sedentárias estavam em média 60% mais pesados que no início do experimento. Já os filhos de mães treinadas não sofreram alteração no peso.

Além de ingerir menor quantidade de alimentos durante as 16 semanas, esse segundo grupo apresentou gasto calórico basal cerca de 5% maior que o controle.

Embora a taxa de glicemia basal dos dois grupos tenha sido semelhante, quando os pesquisadores administraram insulina sintética nos animais observaram que os filhotes das mães treinadas conseguiam captar a glicose mais rapidamente, indicando maior sensibilidade ao hormônio.

“Ainda não sabemos ao certo se isso foi uma modificação relacionada com o exercício materno ou se os roedores permaneceram mais sensíveis à insulina por não terem engordado”, comentou Araújo.

Ao analisar os hormônios relacionados com o controle da fome, o grupo viu nos filhos de mães treinadas um aumento nos níveis de PYY, que é secretado no intestino com o papel de inibir o apetite.

Também houve aumento de interleucina-6 (IL6), uma citocina cuja produção é estimulada pela prática de exercícios. Não foi observada, no entanto, alteração na leptina e na insulina

“Provavelmente, há vários mecanismos conversando entre si que, ao final, resultam em apetite diminuído e gasto calórico aumentado, deixando esse filhote protegido contra a obesidade”, concluiu Araújo.

Influência paterna

O grupo decidiu testar em seguida se a prática de atividade física paterna também teria impacto no metabolismo da prole e, para surpresa geral, os resultados foram muito semelhantes aos do experimento com as fêmeas.

Assim como no caso anterior, os machos foram habituados ao protocolo de natação com carga durante quatro semanas e, em seguida, colocados para cruzar. Nesse caso, foi observada redução no nível de corticosterona entre o grupo treinado e o grupo controle.

Os filhotes dos pais nadadores, embora gerados por mães sedentárias, também nasceram com baixo peso e continuaram menores que os camundongos do grupo controle até a idade adulta. Ao serem desafiados pela dieta hiperlipídica aos 3 meses de vida, não engordaram. Comiam menos e gastavam mais energia. A sensibilidade à insulina ainda não foi avaliada.

Segundo Araújo, há estudos recentes sugerindo que pais obesos tendem a ter filhos obesos e não apenas por causa dos maus hábitos alimentares compartilhados, mas por alterações herdadas no padrão de expressão dos genes.

“São as chamadas alterações epigenéticas, como a metilação do DNA (adição de radicais metila à molécula) ou a modificação de histonas (proteínas que modulam a compactação do DNA), que podem ser passadas via espermatozoide para a prole. Até o momento nenhum estudo mostrou que modificações epigenéticas induzidas pelo exercício físico praticado pelo pai também podem ser transmitidas para os descendentes, mas acreditamos que foi isso que aconteceu em nosso experimento”, disse o pesquisador.

O próximo passo, contou Araújo, é comparar o esperma dos machos treinados e não treinados para ver se há diferença na quantidade e na motilidade dos espermatozoides.

“Por meio de técnicas de sequenciamento também pretendemos comparar o quanto e onde esse DNA está metilado em cada grupo e também se há diferença no padrão de expressão de microRNAs (pequenas moléculas de RNA que regulam a expressão dos genes codificadores de proteínas)”, disse o pesquisador.

Outro projeto futuro é avaliar os netos de pais e de mães treinados para verificar se a resistência à obesidade observada nos filhos é transmitida para a segunda geração, o que reforçaria a hipótese de modificação epigenética.

Araújo ressaltou que ainda é preciso aprofundar as análises para confirmar se a prática de atividade física pelos pais é capaz de induzir uma programação fetal protetora e benéfica na prole. Também afirmou que é cedo para transpor os resultados observados em camundongos para humanos.

“Vale lembrar que o recomendado atualmente pela Academia Americana de Obstetrícia é que durante a gravidez as mulheres pratiquem exercícios moderados, com uma intensidade bem menor do que a adotada em nosso experimento”, disse.

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