Sabe aquele ‘cheirinho’ pós-chuva? Ele guarda boa surpresa

Cientistas descobrem que partículas possuem um conjunto único de propriedades físicas e químicas que podem ajudar a combater o aquecimento global

São Paulo – Ah, o cheirinho de terra molhada e de ar limpo após a chuva…difícil não gostar. O “petricor”, como é chamado esse odor característico, é velho conhecido dos cientistas, que o atribuem a um punhado de fatores, como a asperção de colônias de bactérias que crescem naturalmente no solo provocada pelo impacto das gotas da chuva, à liberação de óleos emitidos pelas plantas e, até mesmo, às partículas de gás ozônio (que tem odor semelhante ao do cloro, usado em limpeza), que desce para baixas altitudes em função da chuva.

Mas acontece que, quando atinge o solo, a chuva também libera no ar bolhas de água cheias de partículas da terra que, segundo os cientistas, podem influenciar o clima do Planeta, desempenhando um papel importante no destino da luz solar que nos atinge. Em um mundo em aquecimento, essa é uma descoberta promissora.

Segundo os autores da pesquisa, publicada na revista Nature Geoscience, durante muito tempo os cientistas associaram a presença de tais partículas orgânicas somente à erosão da terra pelo vento ou às atividades agrícolas. Os efeitos dos pingos de chuva nunca entraram na discussão.

Mas isso mudou. Observações de campo feitas pelos cientistas indicam que até 60 por cento de partículas que estão no ar depois de uma tempestade em determinadas áreas, principalmente pastagens e campos agrícolas, vêm do solo.

Essas partículas orgânicas são basicamente formadas por carbono (da decomposição de vegetações e organismos), oxigênio e nitrogênio, e geralmente se hospedam no ar por dias ou semanas, muitas vezes viajam longas distâncias.

Elas formam pequenas esferas vítreas, de menos de um centésimo da largura de um cabelo humano, que podem conter uma enorme influência sobre o clima na Terra por sua capacidade de refletir a luz solar.

Agora, os pesquisadores estão implantando um conjunto de ferramentas avançadas de imagem química para analisar as partículas e seu poder de refletir a luz e o calor do sol. Os cientistas acreditam que, por essas características, elas têm o potencial de mitigar o aquecimento do planeta.

Eles sugerem que as partículas poderiam servir como núcleos que controlaríam processos relacionados com a formação de nuvens (criar mais nuvens ou torná-las mais brilhantes, por exemplo) e outras ações que ajudariam a bloquear a luz do sol. 

“Essas partículas têm um conjunto único de propriedades físicas e químicas, que podem ter um efeito substancial sobre o clima da Terra”, disse o químico Alexander Laskin, que conduziu o estudo.

A pesquisa vai ao encontro de outro trabalho publicado no ano passado por uma equipe do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que demonstrou em laboratório que os pingos de chuva poderiam liberar no ar partículas finas de água acumulada em superfícies minerais.

O novo estudo apresenta um exemplo do mundo real deste fenômeno e explora as implicações para o clima da Terra. Agora, a equipe pretende estudar partículas orgânicas do solo de diferentes locais para entender melhor o seu impacto ambiental.

Essas conclusões serão integradas em um modelo atmosférico que irá avaliar as implicações dos resultados em escalas climáticas locais e regionais.

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